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Vilipêndio

Vem devagar, futuro.

O Diário de Notícias deu, há uns dias, um passo rumo ao futuro. Passou a ser maioritariamente um jornal digital, seguindo tendências, vontades e dinheiros, pondo fim a uma grande fatia da sua história, que acompanha a história do país e das suas gentes há 154 anos. E a pergunta que consigo arrasta é aquela já conhecida: vão acabar os jornais em papel?

Não consigo imaginar que a resposta seja sim. Irá toda a nossa leitura passar para o ecrã, de poucas polegadas, de um qualquer engenho tecnológico? Livros, jornais, revistas, artigos, teses, ensaios, tudo será confinado a um conjunto de pixéis?

Não quero ver os meus filhos ler O Principezinho sem o barulho da página que vira, sem a paixão física e estranha que acontece entre alguém e um amontoado de páginas impressas. O amor é tanta coisa que também pode ser isso. E, quando se ama, toca-se, estima-se, por vezes amachuca-se, para depois arranjar e estimar mais ainda. É provável que, quando tenhamos perdido o contacto físico com os livros, tenhamos, no caminho, perdido muita coisa mais. 

Creio, honestamente, que é uma atitude expectável por parte de um jornal, nos dias que correm. A grande, quase total, fatia do dinheiro vem do conteúdo digital e isso deve-se a uma cultura de autêntica centralização da vida, e das suas centenas de factores, num smartphone ou coisa semelhante. Contudo, também se exigia que, da parte de um símbolo vivo que é o Diário de Notícias, se fizesse uma aposta na renovação do contéudo impresso. O empreendorismo só se faz para o lado que interessa. Ou que não interessa.

A pergunta passa, portanto a ser: que coisas restarão, no futuro, que não sejam feitas através de um ecrã?

Tudo isto pode ser uma verdadeira velhice do Restelo. Mas eles existem, inventaram-se para isso mesmo, numa altura em que ainda se arriscava a vida por um pobre papel com umas coisas escritas.

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