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Vilipêndio

Vilipêndio

14 de Janeiro, 2024

Um desastre chamado AD

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ūüď∑ Fernando Veludo, LUSA

Cresci numa casa onde a figura de Sá Carneiro ocupava quase o lugar de Deus, porque este ultimo há muito deixara de ser figura, e onde a memória desse PSD e desses anos era frequentemente recordada. Apesar de, ao longo do meu caminho, ter seguido caminhos ideológicos e políticos diferentes disso, não deixo de ter um tremendo respeito por figuras como Sá Caneiro ou Freitas do Amaral, pelo lugar que ocuparam no crescimento da democracia no nosso país e pela sua elevação e respeitabilidade.

Contudo, em 2024, tudo est√° diferente. Os tempos s√£o outros, a nossa democracia est√° em m√£os diferentes, e a Alian√ßa Democr√°tica que nasce para estas elei√ß√Ķes √© uma AD bastante diferente.

Para al√©m da lideran√ßa fraca de Montenegro, do vazio da presen√ßa, parcos argumentos e muito pouco carisma, o PSD chegou nos √ļltimos dias ao rid√≠culo de se ver aliado com uma aut√™ntica nulidade pol√≠tica como Gon√ßalo da C√Ęmara Pereira (que quer Portugal fora da UE, entre outras larachas) e de ver o seu l√≠der imitar no dialecto o lider do Chega. E esse √© exactamente o partido que mais teremos de abordar quando falamos do definhar do PSD.

O Chega ambiciona ser o principal partido de direita em Portugal e com muito jeitinho e com mais ajudas, n√£o estar√° muito longe de o ser. Conseguiu sugar o conte√ļdo ideol√≥gico do PSD para si, extremando-o no caminho, mas atraindo muita gente que se sentia confort√°vel no hist√≥rico partido social-democrata. O Chega fez barulho, teve um m√°quina bem montada por tr√°s que est√° a dar os seus frutos. Na mete√≥rica subida do Chega fica como triste efem√©ride a aten√ß√£o dada pelos canais noticiosos a Ventura, mesmo quando ele pouco mais de 1% dos votos assegurava, para depois fazerem pain√©is de comentadores debater a inesperad√≠ssima subida do partido. Mordemos todos o isco.

O PSD, como hist√≥rico partido do nosso panorama pol√≠tico, parece estar a ser engolido, devorado ao vivo. N√£o ficam d√ļvidas de que estar√° a ser devorado, em muitos momentos, por pessoas que fizeram parte dele e se alimentaram dele ao longo de anos. Muitas pessoas que v√™m agora em Ventura o homem que queriam no seu PSD de sempre.

Como alguém de esquerda, é triste ver esta caminhada de um partido que sempre representou a oposição respeitável e democrática aos meus valores pessoais. Custa ver repetida a AD que tanto orgulhou a minha mãe há décadas atrás mas desta vez esvaziada ideologicamente, fraca, amputada e a correr atrás de um ex-comentador de penáltis da CMTV.

S√£o os novos tempos e o PSD n√£o parece ter prancha para estas ondas. N√£o nasceu para este mar.

Quanto ao CDS e a Nuno Melo, parecem ser vers√Ķes pol√≠ticas alternativas de quem n√≥s todos sabemos. Apesar da muito maior experi√™ncia pol√≠tica, da maior capacidade argumentativa e com maior sentido de democracia, Nuno Melo parece hoje ser um remake de Ventura. E o CDS, um partido hist√≥rico do conservadorismo portugu√™s e do debate democr√°tico, viu-se vorazmente engolido pelo Chega, porque este soube atrair as bases mais cat√≥licas e conservadoras do eleitorado. Tudo Andr√© Ventura vai engolindo √† direita. Os revoltados com o estado do pais, os ricos, os negacionistas, os saudosos do Estado Novo, os cat√≥licos e evang√©licos. O Chega conseguiu¬†fazer esta alian√ßa PSD+CDS parecer-se muito a um¬†√ļltimo suspiro antes da morte e isso √© gigante para um partido nascido h√° uns poucos anos.

Tudo isto tem ares de fim de ciclo, ares de mudança completa de panorama, pelo menos no que à direita portuguesa diz respeito. Todo o eleitorado à direita terá que escolher, algures no futuro, se é a favor ou contra Ventura. Vimos o mesmo acontecer em já incontáveis países no mundo.

Dito tudo isto, fica tamb√©m bastante evidente que as elei√ß√Ķes que a√≠ est√£o a chegar poder√£o negar o que aqui est√° escrito e poder√£o mostrar que a AD √© uma aposta com capacidade de bater-se com o PS de Pedro Nuno Santos e fazer real sombra ao Chega.

Poderão tornar ridículo todo este texto. E essa é a coisa bonita sobre isto da democracia.

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