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Vilipêndio

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16 de Março, 2021

A UE e um tiro no pé

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A recente suspensão da vacina da AstraZeneca por parte de um grande número de países da União Europeia chega-nos como o pináculo de um processo que, desde a sua génese, está minado de falhas. O que fica como impressão, à partida, é que essas falhas são de origem política.

A ciência, como é usual, fez o seu trabalho. Em silêncio, muitas vezes, na escuridão de horas sem ir à cama e de investigação por cima de investigação, com nomes estranhos e complexos, anos e anos de debates e testes, a ciência fez o que tinha que fazer. Contudo, a seguir à ciência, chegaram os políticos. E esses, nós sabemo-lo, são outra laia. 

 A suspensão da vacina da AstraZeneca é gravíssima pelas consequências que tem para atingir o nivel de imunidade que é desejável, pelos efeitos que tem na confiança da população nas mesmas mas é, acima de tudo, gravíssima pelos motivos que a justificam.

A politiquice e os interesses económicos que estão na base desta suspensão devem alertar-nos para a promiscuidade que existe entre os poderes decisórios e para a fragilidade de uma União Europeia que, após o Brexit, tenta ainda encontrar a sua verdadeira identidade. As falhas no plano de vacinação do continente tornaram-se evidentes logo no início mas o tiro no pé que constitui esta guerra entre o continente e a farmacêutica britânica constitui um dos maiores falhanços políticos desta União tão desorientada.

O combate à desinformação, ao medo pelas vacinas e à desconfiança para com a ciência leva um enorme rombo. As consequências são sérias demais para umas dezenas de casos de fenómenos tromboembólicos (entidade clínica tremendamente frequente e que apresenta uma miríade de factores precipitantes) numa vacina que foi inoculada em quase 17 milhões de europeus, valores esses que se assemelham à da vacina da Pfizer e fazem a comunidade científica garantir que não existe relação causal entre uma e outra coisa.

E aparentemente ninguém falou em suspender a vacina da Pfizer até agora.

Tudo isto numa altura em que, arriscaria dizer, a maior parte das elites políticas (e suas famílias) já se encontram vacinadas. E a minha avó de 85 anos nem um telefonema recebeu ainda.

A UE precisa urgentemente de parar de brincar com a saúde dos cidadãos e perceber que a proliferação de populismos anti-sistema, anti-ciência e anti-políticos não nasce nas árvores, mas sim na realidade.

Fotografia: EURONEWS