Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Vilipêndio

Palavras cheias de nada

logo_legislativas.png

 

 

 

 

 

 

Após quatro anos de um governo que, sendo bom português, foi mais desenrascado do que propriamente eleito, chegou a hora do povo votar. Se é que o povo se interessa por isso. E, já sabemos, quando o tempo é de eleições, costuma dar-se o caso de ser também tempo de parvoeiras. Umas não vivem sem as outras e, para o bem do espectáculo, estão cá as campanhas, os beijinhos, os dedos levantados, a ilusão de diálogo e ideias, o vazio de sentido de oportunidade e de responsabilidade. A tão nossa política de algibeira. Infelizmente é daquelas algibeiras que nunca se lava e acaba imunda. Acho de especial pertinência que, no país que arde por todos os lados, o que se fale seja de golas. É, de facto, o assunto mais premente no que toca a incêndios, não é preciso ser engenheiro. Ou, outro exemplo, que no país que cada vez menos médicos tem nas regiões do interior, um dos assuntos mais importantes durante a campanha seja quem foi que criou e estimou aquilo a que se chama de Geringonça. Podia-se igualmente falar sobre o facto de sermos dos países com maior taxa de abstenção na Europa mas isso já não se ia parecer a uma telenovela da TVI. Também aprecio bastante, e juro que não digo mais, que no país onde se salvam tantos bancos falidos quanto gatinhos presos em árvores, que o que se fale é da genialíssima manobra orçamental que este Governo realizou. Manobra essa que provavelmente lhe dará um segundo mandato com maioria. Parece que já vimos tudo não é? 

Em Portugal, onde uma entrevista ao presidente de um clube de futebol atrai a mesma atenção de um debate político, a política não faz parte do quotidiano. Não existe na realidade que cada um de nós vive. Somos pouco ligados a isso, e se a história nos ensina alguma coisa é o facto de não a podermos apagar. No último século o que aconteceu em Portugal foi um afastamento da população para com a política, levando todos a pensar que isso é para as elites e para quem tem tempo (e dinheiro) para isso, cabendo ao povo o olhar para si, o seu umbigo, os umbigos lá de casa e o umbigo do vizinho. Claro que o fenómeno não é generalizado, como nada é, e muita gente pensa a política que se faz neste país. Contudo, fala-se pouco e discute-se nada. Esquecem-se coisas à velocidade de um jogo da bola, os assuntos são só isso, assuntos. Temporários como a lesão do avançado do Porto. 

Enquanto o povo viver afastado dos políticos, os políticos viverem afastados do povo e os partidos políticos continuarem a ser esta bizarra mistura de narcisismo e autismo, o que se vai falar é de nada. A vontade de todos parece ser exactamente essa, não falar de nada. E o que é certo é que estamos todos a fazer um brilhante trabalho nesse aspecto.