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Vilipêndio

Raiva - desporto nacional

Embora o racismo exista - e bem - em Portugal, o caso de Marega parece-me ser mais complexo do que isso.

Muitos dos que gritaram de forma racista contra o jogador do Porto se calhar, cá fora, até se dão de forma normal com negros, azuis e amarelos. O que se passa é o que sente uma pessoa a entrar num estádio.

O adepto não vai apreciar um desporto. Isso desvirtuou-se completamente. O adepto vai para zona de guerra onde a sua equipa tem de levar a melhor. E se não levar, o adepto também está lá para lhe cair em cima. Já nem sequer é adepto incondicional. É adepto da confusão, da gritaria. Quanto à terceira equipa, os infelizes árbitros, esses nem ao primeiro minuto chegam. Ainda não começou o "espectáculo" e já são para cima de filhos de tudo. 

Passa-se a semana a discutir vertentes do futebol que chegam ao ridículo. Gosto particularmente dos repórteres em frente a unidades hoteleiras para acompanhar as importantes chegadas de um autocarro com jogadores. Ou das imagens ampliadas com zoom para se perceber se o quinto metatarso do avançado estava ou não depois da linha. Como sabemos, isto é tudo normal e faz sentido. 

Mas, como exemplo máximo de qual é verdadeiramente o desporto nacional - a raiva -, nunca esquecerei quando, há uns anos, fui a Alvalade (com a camisola do Benfica bem escondida porque guerra é guerra) e vi uma menina com os seus 5 anos, acompanhada do pai, ouvir que era uma puta. De mão dada com o pai que, por achar que não tinha que esconder a camisola do Benfica da rapariga, ficou completamente petrificado com a cena.

Desde aí percebi o que se passa no futebol português. Quem pense que o caso Marega é apenas racismo está a ver muito mal tudo isto. Alcochete não foi racismo, esta menina de 5 anos que apenas ia ver um jogo de futebol com o pai, não foi racismo.

Enquanto o futebol for mais do que os 90 minutos que se jogam, não sei do que estamos à espera que mude.

E a culpa não é só dos que gritam coisas aberrantes, é de todos nós, seja por darmos razão aos canais para terem 200 horas de conversa por semana, seja por estarmos em casa, ao lado dos nossos filhos, a chamar nomes a uma pessoa na televisão.

Já não há sequer prazer em nada do que envolve o futebol. 

Ou corre bem, e alivia momentaneamente as dores que nos carregam as costas, ou corre mal e é uma confirmação que isto é tudo uma cambada de filhos da puta. E lá vai uma cadeira e um "preto de merda" nisso tudo.

 

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