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Vilipêndio

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15 de Janeiro, 2021

Política twitteriana

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Depois de terminados os debates presidenciais cá pela nossa lusitana terra e depois de vermos o Capitólio americano ser invadido por uma manada recalcada, acérrimos utilizadores de caixas de comentários na Internet, todos eles encapsulados doentiamente numa miríade de teorias da conspiração, tivemos a imagem do que serão as nossas sociedades daqui para a frente: um Twitter da vida real. Uma gritaria constante, uma luta na lama desprovida de conteúdo significativo, seja político, científico, social, ou qualquer outra coisa. Apenas discussão grosseira, simplória e assente maioritariamente em especulações e soundbites.

As redes sociais foram um passo enorme na nossa forma de viver a nossa sociedade, desde as relações interpessoais (onde tiveram um papel bastante positivo de aproximação entre todos nós) à forma como lidamos com a imprensa, o andar diário do mundo, as notícias que fazem o dia-a-dia. Foram, também, uma mudança radical na forma como olhamos para esse mesmo mundo. O barulho começou a ser tremendo, as fontes - sejam elas fidedignas ou não -proliferam de forma exponencial, há um canto qualquer da Internet sempre pronto a dar-nos validação, seja numa matéria pequena e ínfima como num facto científico.

E há toda uma geração de políticos a tirar enorme partido disso, fazendo uso de uma brilhante esperteza e alimentados por sentimentos muito pouco saudáveis para as nossas sociedades. 

Agora, ganha quem fala mais alto, quem for o mais polémico, mais disruptivo, quem tiver mais seguidores e quem souber estar por cima nas trends do Twitter.

Num mundo cada vez mais barulhento, mais interligado, a política não conseguiu manter-se à parte disso.

Hoje ao voltar de uma noite de trabalho, tinha o rádio do carro na TSF. Discutia-se as presidenciais e, na hora de falar de Marisa Matias, a primeira coisa que foi dita incidia sobre uma hashtag que, ontem, assumiu o primeiro lugar das trends em Portugal. Era apontado como o primeiro grande ponto positivo da campanha de Marisa.

Ora, isto não é política ao que me parece. Não é visão estratégica de nada, não é ideal, visão, não é nada. É barulho. É vir ao de cima na lama.

É certo que quase sempre foi com o mesmo candidato, mas muitos debates destas presidenciais pareceram conversas de Twitter. Ironicamente, ou não, foram também os debates mais vistos. Porque é isso que cada vez mais queremos. Não é conversa civilizada, estruturada e, por acréscimo, aborrecida. Queremos barulho porque nos tornaram viciados nisso. 

Há quem me chame velho do Restelo. Mas eu preferia o mundo quando ele era menos barulhento, quando não existiam todas as opiniões dentro de cada um de nós, quando não éramos todos especialistas de tudo.

Preferia o mundo quando a ciência era dos cientistas, a política dos políticos, o jornalismo dos jornalistas e quando não andávamos todos atrás de coisas com o nome de trends

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