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Vilipêndio

Vilipêndio

26 de Junho, 2021

Partido Socialíssimo

vilipêndio

 

A liberdade que tenho em escrever estas linhas é uma liberdade que tem várias caras, interpretações, formas de ser e não ser. A liberdade é coisa maleável, pode ser a minha vontade e o ultraje de outrém. Ganhámo-la, a liberdade, no vinte e cinco de Abril, dizemos nós mas, tal como tudo o que nos é conhecido, vai mudando com os tempos. Hoje em dia a liberdade é uma coisa na vida real e outra coisa totalmente diferente nesse outro mundo, o digital. 

É de uma soberba ironia que, pouco tempo depois de sabermos que o Partido Socialista nomeou - e apaparicou com um chorudo salário - Pedro Adão e Silva como presidente das comemorações para os 50 anos da revolução de Abril, tenhamos sabido que a câmara de Lisboa, reduto mais ou menos indiscutível do mesmo partido, partilha há anos com países mais ou menos democráticos dados de cidadãos portugueses envolvidos em manifestações que podem ir do pro-Palestina ao pro-qualquer pessoa que seja contra o regime do todo-poderoso Putin. 

A forma absurda como Medina afirma ter sabido da partilha de dados através da comunicação social quando o seu próprio gabinete já tinha lidado, há uns meses, com críticas de activistas pró-palestinianos demonstra o jogo de sempre dos mesmos de sempre. O mais do que candidato a suceder a Costa na liderança do PS escapa-se de forma subtil e engenhosa, caminhando para uma mais do que certa reeleição para o cargo na autarquia de Lisboa.

O caso é bastante grave. Não fiz parte de nenhuma manifestação supracitada, contudo arrepia-me a medula que me passa na espinha pensar que deslocar-me a um determinado sítio para fazer barulho me pode valer um bilhete para a embaixada russa ou israelita. Identificar pessoas que gritam a favor de Navalny e não identificar os que gritam pelo Manchester City parece-me desequilibrado. No fundo, identifiquem toda a gente, partilhem tudo, digam tudo a toda a gente. Temos que nos fazer valer de algo. 

A parte de espantar no meio deste drama todo é que o PS se mantenha, ainda assim, como única real potência política para as legislativas de 2023 e que se mantenha com maior percentagem nas sondagens do que toda a direita. Na existência de ideias da esquerda à direita, ganha o partido que, apesar de ter um Cabrita, tem conseguido não afundar o país num caos pandémico e que, mesmo tendo um Medina em conluio com autoridades russas, joga a carta da estabilidade.

A direita está a conhecer-se, ou reconhecer-se, a descobrir novos caminhos, enquanto o PS navega por mares revoltos, por onde navega também um Bloco de Esquerda que não sabe bem ainda se quer ser da luta e do activismo ou do sistema de governação, mas esses mares não chegam a quebrar o casco socialista. 

Costa pode contradizer e bater-se publicamente com o político mais cimeiro e popular no que toca à gestão da pandemia, pode ver o seu partido envolto numa já corriqueira amálgama de casos e casinhos, Costa pode ver tudo isto acontecer ao mesmo tempo que acerta a agenda para a saída para o cargo europeu. Mantendo-se há mais de nove mil dias em cargos executivos, como escrevia o Público há uns dias. 

Costa e o PS jogam as suas liberdades, políticas e eleitorais. Nós jogamos com as nossas. Mas é bom que, nesse jogo, nos mantenhamos sempre em casa, não vá o nosso nome ir parar à secretária do embaixador russo.