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Vilipêndio

Obviamente, Bolsonaro.

 

 

Há uns tempos, num restaurante em Coimbra, conheci um rapaz brasileiro que me contou a história da sua vinda para Portugal e como acabou a ser empregado de mesa num restaurante na cidade dos estudantes. Dada a pouca afluência do restaurante e a desculpa de uma boa conversa, a nós se juntou e falámos durante toda a refeição.

Brasileiro é assim. Desempoeirado, prático e muito conversador. 

Começou por dizer que tinha vindo há poucos meses em onda de desespero, de vale tudo, a si mesmo dizia que só voltaria ao Brasil no dia em que passasse fome em Portugal. Com alguns truques de conversa foi fácil chegar ao porquê de tal desespero. Um dia, ao fechar a sua loja no centro de São Paulo, por volta da meia-noite, é abordado por dois meliantes que lhe pedem tudo e mais alguma coisa. Depois de dar a carteira e o telemóvel, gera-se uma confusão em relação ao carro, um deles acaba a tirar uma arma do casaco, aponta-a à sua cabeça e dispara. A arma encravou e a história deste brasileiro de 30 anos pôde continuar. Os ladrões, que por esta altura podiam ser assassinos, fogem a sete pés e deixam um homem, congelado de choque, a viver uma vida nova. Contudo, o trauma veio para ficar. E ficou. Tanto tempo foi que desistiu e veio para Portugal. Onde, como ele me disse, "vocês nem sonham a sorte que têm em poder andar de relógio na rua". Hoje, jura a pés juntos que nunca mais voltará ao Brasil, é lá que o trauma mora.

 

Bolsonaro não ganhou apenas porque o povo brasileiro está farto da corrupção. Também é resultado da vontade insaciável que os brasileiros têm em andar para a frente, de crescer ao ponto em que andar na rua de relógio não é motivo de problema. Cidades como o Rio, São Paulo, Bahia, entre outras, merecem dar um salto em frente que começa a ser inadiável ao olhar do brasileiro comum. Em nome disso, arriscaram tudo. A verdadeira democracia quiçá só vale a pena até valer a pena. 

Pouco interessou o historial de agressões ao bom-senso que Bolsonaro traz na bagagem, nada disso impediu o impregnar da ideia de rompimento com o PT, a sua cúpula e a corrupção. Tudo o que bastava era um discurso de mudança, radical, uma postura séria, incorrompível. Um militar, ou alguém que a isso se assemalhasse. Alguém que anunciasse a mudança, a tão ansiada mudança brasileira.

E a mudança aí está. 

Dá medo pensar no que ela trará ou para que direcção levará o Brasil, se definitivamente para a frente ou irremediavelmente para trás.

 

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