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Vilipêndio

Vilipêndio

09 de Novembro, 2021

O regresso do caos

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O covid não acabou e tudo indica que não acabará por obra mágica do destino. Ele continua entre nós e até parece que vem aí uma quinta vaga. 

Contudo, é difícil não sentir, nos últimos tempos, uma sensação de regresso à normalidade. Seja lá o que for essa normalidade e quão normal ela, de facto, é. 

Adianto já a minha opinião: esta normalidade é-me tudo menos normal. Esta normalidade mata-me, devagar e eficazmente. Espero, a bem da minha sanidade, que não seja caso único. 

O regresso a uma vida pós-confinamentos, pós-distanciamentos e pós-tudo o que passámos nos últimos dois anos está a deixar em mim uma vontade enorme de expressar um sentimento que eu não queria carregar, uma saudade que eu não queria ter. 

Penso nem ter coragem de o dizer em voz alta, é inexplicavelmente ridículo e de uma insensibilidade infantil, mas aqui vai: vou ter saudades da pandemia. 

Considero este blog um espaço onde a minha liberdade de expressão é máxima, e utilizo-o como expurga de muitas e complexas coisas. Esta é uma delas. 

Tenho saudades de me ver na Avenida da Liberdade, saído do trabalho, e estar sozinho nela. Tenho saudades da cidade ser dona dela mesma, de poder respirar sem ser ar saído de escapes, tenho saudades de quando a cidade não era um alvo de milhares e milhares de turistas embrutecidos pela vontade de pôr a melhor foto no instagram. 

Foram meses bastante duros para todos nós, vimos e vemos ainda muita gente morrer à conta deste vírus, mas durante algumas semanas, sinto que o mundo e as nossas vidas foram aquilo que deviam ser sempre: calmos, sem barulho, sem caos, em sintonia com o tempo da natureza e com a calma que nos é inata. 

O regresso à normalidade trouxe a aberração do trânsito, pior ainda que antes, porque se já antes havia pouca vontade de nos enfiarmos em autocarros cheios, parcos e atrasados, agora então essa vontade diminui muito. O regresso à normalidade trouxe o total caos do estacionamento, em algumas partes desta cidade, para níveis já perto da guerra civil. O regresso à normalidade trouxe tudo o que já não era normal antes e agora se tornou aberrante. 

No meu trabalho, há pessoas a ir ainda mais cedo que antes para arranjar lugar, há pessoas a chegar ao trabalho às 6:30 da manhã para arranjar estacionamento e pouparem-se ao interminável trânsito. E não é só uma pessoa, são muitas. Estamos a tornar-nos reféns de carros e lugares de estacionamento, seja no trabalho ou no regresso a casa.

Carros em cima de carros, gente com pressa e com muitas raivas escondidas. 

Todos nos vamos lembrar das semanas em que vimos o mundo, subitamente, sem seres humanos. Ou, pelo menos, sem tantos seres humanos e carros e o seu barulho e o seu estacionar. Todos teremos sempre presente que o mundo foi literalmente outro durante uns dias, foi prova suficiente que isso é possível, se apenas houvesse vontade. 

Agora, ninguém sabe bem o que aí vem no que toca a esta pandemia e como será o futuro próximo. Mas penso que já é hora de dizermos, com alguma certeza, que ela não serviu para mudarmos para melhor.

Na semana derradeira da COP26, em Glasgow, onde os líderes mundiais tentam (ou esforçam-se por parecer que tentam) assumir medidas concretas de combate às alterações climáticas, penso ser altura de todos, todos mesmo, dos líderes às crianças, dos ricos aos pobres, de altos e magros, do Sul e do Norte, pensar como queremos que seja a nossa passagem pelo planeta e como, acima de tudo, iremos nos mover nele. Os carros estão a ganhar uma batalha importantíssima há décadas. Agora chegou a hora de repensarmos.

O nosso futuro terá, certamente, covid, mas não tem de ter tantos carros. 

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