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Vilipêndio

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29 de Julho, 2020

O racismo, outra vez

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Tal como acontece com os incêndios, dos quais só se fala quando se vê o fumo a cobrir o céu e gente desesperada com baldes de água na mão, o racismo só existe quando há uma notícia para chocar e uma polémica para alimentar. Só havendo sangue e gritaria é que um assunto passa a ser de relevância nacional.

Mas se é assim que tem de ser, pelo menos que se utilizem estes momentos para trazer à tona alguns factos, momentos e acontecimentos dos quais todos nós temos conhecimento mas que, por um motivo ou outro, decidimos ignorar.

Trabalho na Urgência de um hospital público onde é rara a semana onde não se ouve um comentário do género "mas eu vim a um hospital para ser atendida por um médico preto?" ou outras belas coisas parecidas. Por vezes, são apontamentos mais dissimulados, por vezes mais descarados como o exemplo que dei. Por vezes basta um levantar de uma sobrancelha aquando da abertura do gabinete do médico. Os colegas de cor, de qualquer profissão que sejam, já habituados a essa reacção, não fazem disso caso. Têm mais do que fazer e já é tão habitual que perde significado. E essa é a consequência mais grave: a normalização da situação.

Chega a ser tão normal que um canal de televisão mete, de forma diferida e, portanto, sem o azar do directo, uma testemunha do assassinato do Bruno Candé a dizer algo como "ele apesar da cor que tinha, não fazia mal a ninguém". Quando ouvi isto, ia-me caindo na goela o pedaço de bife que degustava. Gente a dizer barbaridades é uma coisa, mas um canal transmiti-lo conscientemente é aberrante. 

Vamos a outro exemplo. Há uns tempos andei à procura de casa para alugar. Vi cinco casas no total. Uma das conclusões a que cheguei é que arranjar casa com um tom de pele diferente do santo-imaculado-intocável branco é tarefa hercúlea. Das cinco casas, em duas disseram-me abertamente que não alugavam a "pretos e brasileiros" e outra que não estava disponível para "gente estranha". Ora, portanto, no que toca ao acesso à habitação, algo que - digamos - é essencial para se poder viver, a experiência não é igual. A montanha que se tem de subir é maior. A dificuldade não é só o preço da mesma, é conseguir passar a imagem de seriedade que um branco, em princípio, não terá de passar.

Isto é racismo, do mais duro, incompreensível, primitivo e abjecto que se pode imaginar. E não é so na extrema-direita dos Venturas ou nas caixas de comentários dos sites da bola. Não, é um racismo no dia-a-dia, na vivência normal do quotidiano. É um racismo em coisas tão básicas como o respeito pela profissão de alguém ou na obtenção de uma casa para se viver.

Se nos EUA, onde o racismo também existe pois claro, há uns anos tiveram um presidente negro, em Portugal todos sabemos que isso está a muitos anos de distância. Os motivos são vários e não cabem nesta pequena dissertação, mas vão desde o acesso à habitação, passam pelo acesso à educação e culminam na visão que a sociedade tem dessas pessoas. E aí há países que são uma lição para Portugal. Porque mesmo um médico, com o seu curso tirado na Faculdade de Medicina de Lisboa (e não numa garagem qualquer), não é visto com os mesmos olhos, mesmo quando - e aqui entre nós - é bem mais competente e sério que o colega ao lado, branquinho como a cal. 

O racismo existe. E está na hora de se falar dele todos os dias, em todos estes momentos. Está na hora destas reacções começarem a fazer-se acompanhar de uma outra reacção. E essa reacção não pode ser só da vitima mas de todos nós. De todos nós que nunca ouviram "volta para a tua terra!". Há medo de o fazer, porque em Portugal há medo de quase tudo. 

Se continuarmos a ficar calados e falarmos apenas quando há um crime hediondo para discutir na televisão, então seremos tão culpados como os que olham para seres humanos e os qualificam consoante a melanina na sua epiderme.

Imagem: JL / The Pharmaceutical Journal

 

 

 

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