Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Vilipêndio

Vilipêndio

10 de Agosto, 2023

O maior medo de todos

vilipêndio

4-alzheimers-disease-hans-ulrich-osterwalder.jpg

Soube recentemente que um médico com quem trabalhei está, aos 60 e poucos anos, com Alzheimer e num estado já bastante avançado. Não o vejo há alguns anos e infelizmente foi uma notícia que não me chocou totalmente porque a última vez que o vi já se notavam nuances menos normais nas suas respostas e comportamentos.

Ainda assim, foi difícil saber que este médico, homem divertido e bastante respeitado na sua comunidade, já pouco conhecia a família e que já nem sequer conhecia pessoas com quem trabalhou durante mais de 20 anos. 

Posso dizer com toda a facilidade que este é o maior medo que me assalta, é a vertigem mais incompreensível e desumana. Sei isso há muito tempo, não ajuda certamente já ter visto alguns casos de demências precoces e bastante sérias e já ter lido algumas coisas sobre este órgão que nos comanda tudo. 

O que achei curioso é que todas as pessoas com quem falei sobre a triste situação deste antigo médico é que todos repetiram o mesmo: esse é o meu maior medo. Parecemos todos ter uma assustadora rapidez e facilidade para dar esta resposta. Quiçá por ser verdadeira e vinda das nossas mais íntimas entranhas. Sabemos todos dizer isso por sermos todos muito parecidos em muitas coisas pequeninas e primitivas. 

Podíamos ter o medo de morrer atropelado por um camião, por uma doença física grave e incapacitante, podíamos ter medo de morrer afogados no oceano, de ficar sozinhos no mundo, de não cumprirmos nada do que sonhámos. Podíamos é até temos medos de todas essas coisas. Contudo, aparentemente há algo que nos assusta bem mais: perdermo-nos a nós mesmos. 

Isto prova que, mais do que a carreira, mais do que dinheiro ou posses, mais do que os outros, no final de contas todos nós queremos ter a nossa dignidade e as nossas memórias, a memória de nós e dos mais próximos. Perder isso é demasiado para nós, é pior que qualquer outra coisa. 

O cérebro é e continuará a ser a coisa mais fascinante existente no planeta, a mais perfeita representação de imperfeição. Por sermos quase só resultado desse mestre, tornamo-nos reféns dele e isso fica dolorosamente evidente quando vemos alguém preso dentro dele mesmo, sem que possamos apontar para algo palpável, apenas sabemos que algo de muito grave aconteceu naquele cérebro.

A morte pode ser o fim de tudo, pode ser fim demais, mas a morte parece ser mais pacífico do que uma demência que sabemos não ter cura e só irá piorar. Há algo mais humano no coração parar e deixarmos de cá estar, quando comparado com estarmos só fisicamente.

O Alzheimer é a doença mais assustadora porque nos deixa num limbo, num deserto de quilómetros sem fim. Por muitas dúvidas que tenha sobre muita coisa, sei perfeitamente que será sempre esse o meu maior medo. 

📷 ILUSTRAÇÃO Alzheimer's Disease by Hans-ulrich Osterwalder

3 comentários

Comentar post