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Vilipêndio

O livro não pode morrer

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Ia num comboio, o destino era Sintra. Possivelmente o dia não tinha corrido da melhor feição, às vezes eles são assim, ou nós assim, quem sabe onde mora a razão, e isso pode ter tido um papel decisivo na forma como eu vi o que vi. A carruagem não ia cheia, as principais saídas já haviam passado. Acabava mais um capítulo do livro com o seu ponto final e a quebra de página, e eu aproveito esse momento para parar dois segundos, levantar a cabeça, ver se o mundo continuava ali onde devia.

Até esse ponto pouco me lembro da viagem que começara no Rossio, o eterno Rossio. Recordo-me que houve, no início, uma menina que estava na hora da birra e que se assustara provavelmente com o movimento rápido desta caixa chamada comboio, e que, a meio da viagem, as luzes se apagaram por um segundo, breve interrupção luminosa. Já é prática costume e dá para ver pela ausência de reacção dos viajantes que, por serem tão assíduos, atingiram o nobre estatuto de clientes e estão por dentro dos detalhes e pormenores da viagem.

À minha volta estavam, entre alguns bancos vazios, um rapaz com os seus 15 anos, uma senhora com os seus 50, outra com uns menos, um homem a meio caminho entre empresário e duas amigas com um pé no secundário e outro na faculdade. Quando o capítulo mudou e a minha cabeça se levantou, o que vi foi todos de pescoço baixo a mexer no telemóvel. E aí tirei a mais horrenda fotografia mental: a da aberração que é ler um livro nos tempos que correm. Ou, por outras palavras, a aberração que é não estar a mexer num telemóvel. 

Uns dias depois, fui até ao Algarve de autocarro. Fui grande parte da viagem a ler e a escrever, a olhar o caminho, o mesmo caminho mas de onde conseguimos tirar novas mensagens, bastam serem novos os olhos com que olhamos. No caminho para lá, quem ia ao meu lado era uma mulher com 40 e poucos anos. Durante as mais de 4h de viagem não pude deixar de reparar nela andar para cima e para baixo no Instagram, para cima e para baixo no Facebook, para cima e para baixo no Messenger. Punha o telemóvel para baixo, mexia-se desconfortavelmente durante 2 minutos e voltava a pegar nele. E o ciclo recomeçava. Não consegui ver mais que isto, não sei que mais possa ter feito ao longo da viagem. 

Há uns anos, quando se andava no comboio ou no autocarro, viam-se algumas pessoas a ler e a grande maioria a fazer nada. Daquelas que liam, algumas continuam a ler mas muitas provavelmente já não o fazem, o entretenimento está todo concentrado numa pequena máquina, bem mais fácil de carregar, e bem menos exigente. E as que nada faziam arranjaram uma boa forma de fazer ainda menos que nada.

O livro é uma luta, uma disputa entre leitor e história, uma aventura que para se chegar ao seu fim tem que se lutar pelo orgulho e com garra. Um livro é um desafio, monótono, palavras a engolir palavras, linhas sem fim. Mas se há certeza que tenho é que no fim de um capítulo um homem não é o mesmo. Está a andar para a frente, porque certamente há-de ter aprendido algo que não sabia ao longo do capítulo. E não está, como quem vive agarrado a um telemóvel, congelado, a viver segundo modelos, padrões, invejas e receios.

Imagem: de Ofra Amit, em A Velocity of Being: Letters to a Young Reader

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