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Vilipêndio

Vilipêndio

22 de Junho, 2021

O apelo do autoritarismo

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Um homem não se mede em tamanho mas sim em atitudes. Um homem, daqueles a sério, não tem medo de nada, enfrenta tudo de frente e nunca chora. Um homem a sério tem uma mulher (também a sério) ao lado dele, a qual ele estoicamente protege e abriga. No fundo, um homem a sério é um homem que não se deixa influenciar por nada excepto os seus ideais, valores, desejos e ambições.

Em muitas sociedades, o papel do homem tem vindo a ser alvo de alterações geracionais e formas de estar que se vão adaptando ao andar do tempo. Mas não em todas as sociedades, não da mesma forma, com a mesma intensidade e velocidade.

Por cá, tal como nas sociedades mais a leste desta Europa, a imagem do homem providencial e estóico é coisa que actualmente ainda tem bastante significado e importância social.

Serve esta introdução para trazer à mesa esta notícia recente do Expresso em que revela um estudo feito a nível europeu que comparou a receptividade de cada país a líderes políticos autoritários que pudessem ignorar o Parlamento e/ou eleições. As conclusões colocam Portugal nos lugares cimeiros (ao contrário do futebol, isso não é coisa boa) com uma percentagem de 63% de inquiridos que se mostram disponíveis para aceitar um líder com qualidades de autoritário. 

A herança que Salazar nos deixou, para além das décadas de ditadura sem fim, é uma herança que tem sido e continuará a ser difícil resolvermos como sociedade.

Não foi um ditador qualquer, como nada é uma coisa qualquer por estas terras. Há sempre um pormenor que muda tudo, uma vírgula que muda um livro e uma história.

Salazar, para além de ditador e de ser responsável por crimes contra a humanidade, foi também um homem serio, impenetrável, incorruptível.

E essa imagem está tão impregnada no texto do nosso país que, com o passar do tempo, menos Salazar é um ditador e mais um homem sério se torna. A distância do tempo e dos olhares tem esta capacidade: a de mudar tudo sem que nada mude.

O homem que nunca casou mas que albergava e protegia várias mulheres, da governanta toda-poderosa Maria à filha desta, Salazar foi o homem perfeito, com a propaganda perfeita, na altura perfeita e no país perfeito. Homem de intelecto superior, orador de excelência, tão sério que provavelmente nunca terá gasto um cêntimo de dinheiro público sem que fosse anunciado, explicado e reposto. Havia, obviamente, tanta corrupção naquele regime como noutro regime qualquer. Certamente um dia havemos de perceber que o problema não é a forma nem a cor do regime mas o objectivo de qualquer um deles, o poder, que leva a que a corrupção e os interesses estejam presentes sempre. 

Contudo, a imagem que fica de Salazar numa parte significativa da população portuguesa é a do homem que não brincava em serviço e que punha os interesses pátrios acima de qualquer interesse.

É, por isso, fácil de perceber onde tanta gente vai buscar a tentação por um homem autoritário, um líder que ignore a democracia representativa, ponha fim ao gastadíssimo jogo entre partidos (os malditos e cada vez mais detestados partidos políticos), que ponha o país na linha e acabe com as sanguessugas que por aí proliferam.

Tenho a dizer que poucas coisas me preocupam tanto como isto. Com o suceder de vários erros e azares, corremos o risco de ver este país cair novamente nas mãos de um homem só, engolfado num culto de personalidade e que ignore e ataque a democracia e os seus valores, isolando (mais ainda) o país, matando a pluralidade de ideais e visões. 

É fácil entender de onde vem toda esta raiva e todo este sentimentalismo pró-autoritarismo, tornou-se impossível acompanhar e numerar todos os casos que provam a progressiva podridão do sistema democrático e da política. Contudo, na minha (e na de 37% dos portugueses) singela opinião, a única solução só pode ser resolver os problemas da democracia, em democracia, e não entregar o nosso destino a um homem que, por sério que seja, não pode ter os destinos de um país inteiramente no seu regaço.

Ventura fará tudo para encarnar esse homem e pintar a imagem de sucessor natural da ideologia e do regime de António de Oliveira Salazar, mas não conseguirá esconder que é mais podre que qualquer outro representante político, e quem não o vê é quem está cego de raiva, cego de tudo, e não percebe que não há homem nenhum neste planeta que seja capaz de dizer que é incorruptível, nem quem escreve estas linhas nem ninguém.

Respeitemos sempre a democracia e saibamos fazer dela aquilo que é: a melhor solução possível. Os erros do passado é aí que devem permanecer, nunca esquecidos mas nunca repetidos, e cairá nas nossas mãos tomar essa decisão. 

 

Coitadinho
do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...

Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.

Fernando Pessoa no poema "António de Oliveira Salazar"

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