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Vilipêndio

Vilipêndio

11 de Dezembro, 2020

Jesus, porque não te calas?

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Sendo eu um filho orgulhoso da Amadora e um Benfiquista desde o berço, Jorge Jesus tinha tudo para ser um ídolo para mim. Há dez anos fez do Benfica uma máquina de jogar à bola, como muita gente da minha geração nunca tinha visto. 

Mas, hoje, tudo é diferente. Para além de ter perdido a magia - como sempre acontece - dessa primeira vez, Jesus está mais zangado, arrogante, senil. E quando as coisas lhe correm menos bem, mais visível tudo fica. E o que fica visível é uma saloiice estonteante, uma ignorância monumental. Um homem que não devia ter um único minuto de visibilidade pública para além das quatros linhas e dos noventa minutos.

Depois de ridicularizar a opinião de uma repórter, dizendo que ela "não devia saber muito sobre o que é qualidade no futebol", pôs agora a cereja no topo do bolo com a sua reacção ao que aconteceu no jogo da Liga dos Campeões entre o PSG e os turcos do Basaksehir. Seja ou não racismo aquilo que aconteceu no dito jogo, Jorge Jesus não podia perder mais uma oportunidade de demonstrar toda a sua ignorância, baixeza e, acima de tudo, o seu privilégio como homem branco e rico. 

Diz Jesus, como muitos outros, que está na moda o racismo. Ver um branco a menosprezar o racismo é provavelmente dos maiores absurdos que a nossa sociedade actual nos pode oferecer. É tão ridículo como ver um bilionário menosprezar a pobreza no mundo ou um homem dizer que não existe desigualdade de género.

Infelizmente, estamos muito longe, como sociedade, de dar a voz a um movimento que pretende que haja igualdade na vida das pessoas negras. Como escrevi num texto neste blog há uns tempos, este é o país em que quem vai alugar uma casa não raras vezes ouve "só não alugo a pretos e brasileiros" ou que um médico negro ouve muitas vezes, por parte do doente, que não quer ser atendido por alguém com o curso tirado "lá em Angola ou sei lá eu".

Nascido e criado na Amadora, uma cidade que muito me orgulha pela diversidade cultural que alberga, assisti a muitos casos que expõem toda a injustiça e o tratamento diferenciado que existe perante pessoas brancas e negras. Eu e os meus amigos nunca tivémos um único problema com a polícia, mesmo que, em algumas vezes, nos tenhamos portado menos bem. Ou mais bebidos que o aceitável, ou a falar mais alto na rua com as nossas cervejas na mão, ou andando um pouco mais rápido com o carro. As coisas típicas de uma estupidez juvenil. Contudo, ao chegarmos à escola no dia seguinte, não era difícil encontrar casos de colegas negros que, pelos mesmíssimos motivos, acabavam a passar duas horas na esquadra, depois de terem estado encostados a um muro e serem revistados por completo, tudo isto bem enfeitado com uns certos piropos mimos.

Connosco, contudo, nunca passava de um "vá, vejam lá se se portam melhor". É tão literal quanto isto. 

A injustiça que muitas vezes sente um negro em momentos distintos da sua vida não deve ser ignorada. A nós, brancos, só nos cabe calarmo-nos e ouvirmos. O negro não quer ser melhor e mais privilegiado que os outros. Só quer o mesmo. Só quer ter rigorosamente o mesmo tratamento. 

 

Jorge Jesus esqueceu-se do clube que representa. E esqueceu-se porque, como muita gente por aí, vive enfiado no seu umbigo e na sua privilegiada realidade. O Benfica deve muito aos países africanos e aos negros a sua imensa força. O desrespeito que Jesus demonstrou com esta vergonhosa opinião é histórica. E muitos benfiquistas não vão esquecer. 

 

Nunca eu senti na pele qualquer tipo de discriminação pela cor da minha pele. Não sei sequer o que é isso. Nunca ouvi nada parecido a um volta para a tua terra. É este o assunto. É a isto que se refere o movimento Black Lives Matter. Dizer que o racismo é uma moda e que All Lives Matter é ser um quadrado. É ser ignorante. É ser um Jorge Jesus. 

Não sejamos como o Jorge Jesus.

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