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Vilipêndio

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24 de Setembro, 2020

Já chega do Chega

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Ilustração Chega Para Lá de Christophe Marques @ not_from_

Já passámos a janela da prevenção. Deste cancro já não nos livramos. 

Agora resta-nos actuar. Forte e eficazmente.

Quando o fazemos a tempo, muitos destes cancros podem ser combatidos e, com muita dedicação e alguma sorte, erradicados.

Vou começar pelo início.

André Ventura é um palhaço. Aliás, por respeito à profissão e à arte, diria que ele é um palhacinho. Um palhacinho de vão de escada. É leite azedo, é pão duro, é uma anedota sem piada nenhuma.

Foi dada a um comentador de futebol de má qualidade da CMTV - essa luz de esperança e pináculo da seriedade - a voz e o comando de uma força que estava silenciada e assim devia ter permanecido. E a voz que ele escolheu foi uma voz saloia, asquerosa, racista, xenófoba, populista, machista, belicista, ultrajante. Uma voz que é um nojo. Uma voz que, ironicamente, é em muitas coisas contrária aos ideais - essas coisas facilmente vendíveis e compráveis - do seu querido Líder. 

André Ventura é o político anti-corrupção e anti-sistema e que vai limpar isto tudo, excepto se for o Luís Filipe Vieira. O político que quer limpar a escória que corrói a nossa classe política, mas que junta ao trabalho de deputado outros tantos no sector privado e que propõe impôr uma taxa única de IRS que o beneficiaria a ele como deputado, ele é o político que vai dar suporte ao cidadão comum, retirando-lhe o Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista da história da nossa democracia e suporte vital na vida de milhões de portugueses. O absurdo de tudo isto é coisa que ultrapassa claramente a capacidade de entendimento de muitos que irão regurgitar a cruz no quadradinho do Chega. A ironia é demasiada. 

Mas o perigo é grande. Há vozes que devem permanecer caladas. Há vozes que foram combatidas por milhões e milhões de seres humanos para que os outros, os palhacinhos, permanecessem escondidos em caves, beijando as suas suásticas em segredo, venerando o seu Salazar na penumbra da noite, masturbando-se com a farda negra de Mussolini fechados na cave da casa das mães, onde vivem com quarenta anos, sem saber o que é o mundo ou, sequer, o que é ser alguém minimamente feliz.

 

Há algum tempo que via André Ventura a chegar até nós. Não se pode dizer que foi de mansinho, mas agora já é uma certeza para todos. Ele está aí. A extrema-direita tem o seu rosto. 

Tivémos os Estados Unidos, onde Trump consegue o feito de destruir, a cada dia que passa, a instituição da democracia americana, tivémos Bolsonaro, que se aproveitou e apoderou de um super-país em ruínas para o levar décadas atrás, iremos ter seguramente outros exemplos noutros países do mundo que nos habituámos a imaginar como grandes, importantes, democracias que eram intocáveis e ideais que nunca seriam postos em causa.

Espero sinceramente que Portugal não seja um exemplo disto. Temos uma memória colectiva bem recente que outros países não têm. Muitos de nós viveram de facto sob alguns destes ideais. A história recente de Portugal é Salazar e o fim de Salazar.

Está tudo muito fresquinho, André. Vais ter que fazer muito para fazeres um país inteiro - ou boa parte dele - esquecer isso.