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Vilipêndio

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19 de Abril, 2022

Estamos cegos de um olho

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Associated Press


Evitei escrever sobre a Ucrânia por um sem fim de razões, todas elas complexas e intrincadas. O que aconteceu nos primeiros dias da invasão russa foi um choque que abalou-nos a todos, logo depois de uma pandemia. Parece-me haver, embora agora com menos estardalhaço, uma histeria televisiva à volta do confronto que me levou a ter que desligar, pura e simplesmente, os canais noticiosos. Recorrer aos velhos jornais nem sempre é mau - é sempre melhor, aliás. A constante actualização televisiva e os BREAKING NEWS nunca substituirão a leitura mais lenta e aprofundada sobre o conflito.

Esta guerra era uma guerra que se adivinhava mas que ninguém soube evitar. É justo dizer, portanto, que o ser humano está a especializar-se afincadamente na arte de ignorar coisas óbvias e com repercussões terríveis na nossa vida, sejam alterações climáticas ou pandemias respiratórias. Ou seja, já descobrimos o que nos une a todos e nos faz sermos iguais: o facto de estarmos todos cegos de um olho.

A guerra é o último passo antes do abismo, ou o abismo em si. A guerra leva as pessoas a um estado mais primitivo, de confronto entre um lado A e um lado B, e leva-as a entrincheirarem-se. Como sabemos, é raro isso dar bom resultado.

O abismo é agora visível todos os dias, na televisão, em todos os jornais e revistas. Podemos assistir a mortes e mais mortes, à destruição de todo um país às mãos de uma maníaco, podemos ver e rever tudo o que simboliza o falhanço da humanidade, como se a guerra se tivesse tornado espectáculo televisivo, mero combate na arena das audiências. Percebemos, portanto, que a atenção que damos aos assuntos actuais no mundo tem repercussão na forma como as sociedades respondem aos mesmos e que se o fizéssemos com uma míriade de outros assuntos, podíamos estar uns passos à frente em várias vertentes.

 

A guerra cheira a mofo. O simples facto de passados tantos séculos ainda termos Putins que resolvem assuntos na base da invasão militar e crimes de guerra, e pessoas que dela lucram e enchem os bolsos de dinheiro e sangue, devia-nos fazer pensar se não estará a humanidade condenada. 

É provável que este deprimente espectáculo continue por mais tempo, muito mais tempo. É provável que depois de Putin venha outro maníaco noutra latitude qualquer, do lado A, B ou C. É provável que tenhamos todos que discutir coisas, daqui a uns anos, que não estávamos preparados para discutir.

E é muito provável, também, que no fim fique tudo na mesma, com a diferença de estarmos mais perto do abismo.

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