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Vilipêndio

Duas realidades

Há quem diga que a magia não existe e que é só uma invenção do Luis de Matos. Eu, contudo, creio que ela é bem real e que se pode ver pelo facto de aparentemente existirem em Portugal duas realidades para a mesma realidade, as duas a correr lado a lado uma com a outra. 

Uma das realidades diz-nos que estamos ricos, nasceu um Portugal novo das cinzas da grande crise, os salários explodiram, ganhamos todos que nem uns CEO's americanos, a prosperidade e o mundo descobriram-nos finalmente. E que melhor barómetro deste extraordinário passo em frente do que o valor de uma casa, um bem que é daqueles como a água que bebemos: essencial. Ora, e vendo como as coisas correm no mercado imobiliário nos dias que correm, isto não podia estar melhor. Viver no Algueirão já não é nada do que era, modernas metrópoles como essa estão obviamente a actualizar-se no que toca a preços e hoje viver num Cacém ou numa Amadora já não é para qualquer um. São os novos tempos, em que um T1 a 200 metros da Cova da Moura pode custar 600€ por mês. Não é de admirar, a beleza histórica tem que se pagar.

 

A outra realidade, que caminha junto com esta, é a realidade em que tudo está basicamente na mesma. Nem muito melhor, nem muito pior. Ganha-se o mesmo, tirando euro ali e aqui. Todas as pessoas que conheço estão a ganhar o mesmo do que há uns anos. Enquanto isso o preço da vida é coisa que só sabe aumentar. Viver na Amadora, numa casa - vá lá - normal pode custar um salário. Sim, pelo que eu sei há algumas pessoas a ganhar o salário minímo e coisas muito parecidas a isso. São mais de várias, pelo que dizem algumas fontes. Soube de uma casa, como exemplo do ridículo, que há 10 anos era alugada por 100€ por mês e hoje o valor pago é de 550€, sem que nada dentro das suas paredes tenha mudado. Tudo isto, sabemos nós, como belíssimo resultado social da loucura que se instalou à volta de Sua Excelência Lisboa. Se viver dentro dela hoje é coisa para carteiras muito específicas, o que à volta dela se instala, as vistas de Sintra e arredores parece que lhe estão a agarrar um pedaço do brilho a ouro. 

Eu, que nunca consegui nem almejei um bilhete para a WebSummit, nem tenho nenhum hostel para pôr a render, nunca tive um cargo em inglês nem tenho experiência em startups, que apenas tirei o meu curso e acabei a exercer num hospital público, vejo hoje Lisboa por um canudo. Lisboa é outra realidade, outro mundo. Não é para mim, certamente. 

 

Parece-me que esta segunda opção é a nossa verdadeira realidade. É certo que não será a de todos, mas não nos façam crer que subitamente isto se tornou um país de ordenados chorudos à moda sueca.

Ou então façam. É esse o poder da magia, não é?