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Vilipêndio

Vilipêndio

04 de Dezembro, 2021

Deus, Pátria, Fascismo

vilipêndio

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Punha-me a par das notícias quando vejo a imagem que acima reproduzo. 

Parecia ter entrado numa câmara do tempo e ter caído algures num passado enterrado. 

Todavia, para além de não ser passado era tão actual como ontem. 

Onde é que falhámos para, chegados a 2021, termos um partido que caminha para ser a terceira força política e que incorpora em si tudo o que foi derrotado naquele dia de Abril de 1974?

Como foi isto possível?

Como é que voltamos a ouvir o lema "Deus, Pátria e Família" sem ser num documentário histórico sobre a nossa longa - longa demais - ditadura?

Não tenho filhos mas sofro por quem terá de responder a estas perguntas vindas de um filho que, por acaso, acabou de estudar na escola que Salazar fechou o país ao mundo e silenciou todo um povo durante décadas, que era um ditador e prendeu milhares de pessoas pelo crime de terem uma opinião. Não sei como se poderá responder ao porquê de termos, quarenta anos depois desse dia inaugural, um partido que incorpora tudo o que é prévio à esse evento, tudo o que é retrógrado e antidemocrático. 

Que progresso é este que nos quer fazer voltar ao passado?

Como é que ligo a televisão em 2021 e vejo a saudação romana em pleno noticiário? Como é possível ver a ascensão de um partido de um homem só, inquestionável, líder absoluto de um grupo de homens e mulheres que o seguem cega e patologicamente? Como raio chegamos a 2021 com um líder de um partido a falar em Deus e em valores cristãos num evento político? 

Havia, quiçá, necessidade de criar um partido que agremiasse o conjunto de idiotas, extremistas religiosos e sociopatas do nosso país, tal como houve noutros países, mas não deixa de haver um perigo iminente nisso.

A nossa democracia é jovem e, por isso, frágil. Não será, certamente, um ex-comentador da CMTV que a irá destruir, mas as questões que deixa são complexas demais para serem ignoradas.

Em democracia, todas as opiniões são válidas e todas as ideologias devem ter voz. Enquanto formos nós a colocar a cruz no sítio que queremos de livre vontade, a democracia está a funcionar. 

Contudo, é preciso pensarmos seriamente neste partido, no que ele traz à vista e, mais ainda, no que ele traz escondido, é necessário que se olhe para os seus métodos de comunicação e propaganda. 

É urgente, acima de tudo, que se pense em todos os milhares de portugueses que querem o passado de volta, que querem um novo Salazar.

Não custa perceber a sede de poder de oportunistas como Ventura e das sanguessugas que dele se alimentam, mas custa muito entender a vontade que familiares, colegas, vizinhos, primos e amigos nossos têm em dar-lhe esse poder.

Importa discutir, aprofundar, melhorar, perceber e aprofundar mais de seguida. 

Este partido é uma doença e ainda vamos a tempo de nos curar dela. A cura, contudo, dá muito trabalho e, por isso, algo me diz que só iremos acordar quando o estrago estiver feito.