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Vilipêndio

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20 de Abril, 2021

Viragens perigosas

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Agora que está confirmada a escolha de Suzana Garcia como candidata do PSD à Câmara Municipal da Amadora, podemos, definitivamente, afirmar que se inicia uma nova era na direita portuguesa. A viragem é aquela que toda a gente já esperava, a que se tem visto por todos os cantos desse mundo, dos EUA ao Brasil e um pouco por toda a Europa.

A política está, passo a passo, a tornar-se numa política de espéctactulo, de gritaria, uma política em que ganha, não o mais pertinente, não o mais inteligente, mas aquele que fala mais alto e que diz as maiores polémicas.

Suzana Garcia tem a postura política e as opiniões de um acérrimo votante do Chega, com bastante referências a limpar escumalhas, a dar cabo desses bairros e dessas gentes menos recomendáveis. Era esse mesmo o assunto que os jornais esmiúçavam: porque é que uma candidata ideal do Chega aparece como candidata do maior, mais histórico e mais tradicional partido da direita em Portugal?

Quais as motivações políticas por trás desta decisão do PSD? Está o PSD a concorrer à Câmara da Amadora com uma pessoa abertamente racista, apenas por isso? Como se a dizer à "população de bem" do concelho que está na hora de "limpar" a cidade? Ou fá-lo como estrategema político, sabendo, à partida, que a candidata não representa o partido mas aproveitando-se do fácil populismo do qual ela se alimenta e da consequente exposição mediática que tem?

Ou é tudo isto uma forma da direita dizer que está atenta a Ventura, ao seu eleitorado e à mensagem que ele passa? 

Como pode o PSD rejeitar, a partir de agora, qualquer associação com o partido de extrema-direita quando, depois de incubar Ventura há uns anos, gera agora uma Suzana Garcia? 

São muitas questões mas seja qual for o verdadeiro motivo, parece um passo atrás. E há passos atrás com os quais é preciso ter cuidado. 

O PSD formaliza a candidatura de uma pessoa que utiliza todos os estratagemas possíveis para nunca dizer a palavra "pretos" quando fala da cidade da Amadora, mesmo que o grite de outra forma, uma candidatura cuja ideologia política aparentemente assenta na ausência de uma, baseando-se apenas na divisão "nós" e "eles" que é tão saudável, tão evoluída, tão erudita. E que tão bons resultados tem deixado, ao longo da história. 

Alguém que, se puder, corre com esses "bandidos" todos a tiro. Que é a forma como ela diz que entraria "nesses bairros". 

É essa a candidata de um dos maiores partidos do país a uma das maiores câmaras do país. A câmara da minha cidade, onde nasci e cresci. Uma cidade que me enche de orgulho pela multiplicidade de culturas que alberga e pela muita e rica vida que tem. Uma cidade que merece políticos melhores, que consigam perceber que não se pode enfiar, como se fez há décadas atrás, milhares de pessoas a viver em bairros e esperar que a criminalidade e a delinquência nessa população seja a mesma. 

Se há problemas com bairros e com quem lá vive? 

Há, sim. Mas está mais do que na hora de percebermos que a propensão para o crime e a violência nada tem a ver com a melanina que nos está agarrada à epiderme e é capaz de ter mais a ver com o ambiente onde crescemos e os recursos e oportunidades que temos na vida. Na escola, ao longo de muitos anos, o que mais me fui habituando foi a ver a diferença entre a minha vida e dos meus amigos e a de todos os outros, os bandidos. Os bandidos cuja mãe trabalhava das 7 às 23 para pôr pão na mesa e cujo pai morrera cedo e que, na escola, queriam apenas jogar à bola como todos nós e ver uns rabos de saias. Os bandidos que, desde que são pessoas, vivem enfiados em bairros inundados de pobreza, de droga, de tudo o que é mau. Porque alguém os pôs lá, ou aos seus pais ou avós, para esconder um problema real, para não misturar as pessoas de bem com quem vinha lá daqueles países. 

Vamos dar as mesmas condições, as mesmas oportunidades a toda a gente e depois logo fazemos essas contas dos bandidos e meninos de bem e deixemos, entretanto, o discurso supremacista branco para o Bolsonaro e o Ventura. 

A história do PSD merece melhor, os eleitores de direita merecem melhor, a Amadora merece muito melhor, mas quiçá - e essa é a questão mais preocupante - a política portuguesa não mereça melhor.

PS-Deixo a recomendação de um livro que me foi aconselhado por um caro bloguista (e fotógrafo) do Sapo (Orlando Figueiredo). White Fragility de Robin diAngelo. É tão inspirador quanto difícil de encarar, está mais baseado nas questões sociais americanas mas, ainda assim e porque o racismo não muda muito com a latitude, explica muitos fenómenos que estão por trás do discurso a que se agarram políticos com poucos escrúpulos mas com uma esperteza astuta, e que mostra como as nossas sociedades têm muitos passos a dar ainda no que toca a igualdade de oportunidades. 

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