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Vilipêndio

Vilipêndio

15 de Agosto, 2022

Chalanix

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Nunca saberei bem se era o seu tamanho, se era a sua personalidade, a sua imensa arte com uma bola nos pés ou se era, acima de tudo, o seu bigode, mas sei bem que Chalana, para mim, é sinónimo de futebol. Nunca o vi jogar - apenas nasci depois do seu apogeu -, mas nem sempre temos que ser contemporâneos de algo para podermos apreciá-lo, seja com que distância temporal for. 

E o Chalana morreu. O nosso real Astérix, o nosso mago, foi-se desta vida.

Não houve nenhum como ele, já não haverá certamente nenhum igual e há pessoas que conseguem essa proeza: a de serem únicas, muitas vezes sem saberem como. Chalana só sabia jogar futebol, e jogou como poucos o fizeram. Vê-lo jogar é ver um Messi de bigode a preto e branco. Ver o Chalana com vinte anos é ver a arte pura dentro de um campo.

Mas Chalana morreu, porque todos somos súbditos de um deus cruel. 

Leva o passado com ele, leva um passado bem passado que tinha bigodes e simplicidade. 

Era tão parecido a Astérix, que nunca ninguém soube bem que aldeia ele protegia de forma heróica. Quiçá tenha sido a aldeia de si mesmo, que lhe fugiu nos últimos anos e ele, finalmente e como todos os heróis, sucumbiu. A memória de ter sido um dos melhores na sua arte desvaneceu-se dentro dele mas, se há coisa que sabemos, é que todos vivemos para lá de nós. Vivemos nas memórias que deixamos e no eterno comboio da vida que nos escapa. Uma maquinaria onde nós não somos senão meros parafusos.

Muitos dizem acerca de Chalana o mesmo que se diz de muitos outros prodígios que não atingem um nível predeterminado de grandeza, "podia ter chegado mais longe". Mas o nosso Chalanix não precisou disso. A grandeza, tal como os homens, não se mede aos palmos e é nestas horas, em que os prodígios desaparecem, que percebemos isso.

O futebol existe porque há os Chalanas, porque a magia de uma bola em contacto com dois pés pode ser algo transcendente. Só isso nos pode interessar.

Chalana foi maior que si mesmo, foi um génio acidental, figura grande sem se aperceber, e nós estaremos cá para o relembrar.