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Vilipêndio

Vilipêndio

18 de Setembro, 2020

Adormecimentos

vilipêndio

Já reparei que há noites, quando levo a cabo o projecto de adormecer, num preciso momento algures entre estar lá e estar cá, naquele ínfimo período de tempo comprimido entre o fim da nossa consciência e o verdadeiro início do sono, quando o corpo já não recebe ordens de maestro nenhum, um segundo muito específico, uma ninharia do tempo, um momento em que grande parte de mim já dorme mas, desconhecendo as forças que me agarram, outra parte mantém-se acordada, é nesse preciso instante que sou atacado por uma amnésia total e súbita.

Nesses segundos eternos, desconheço quem sou, onde estou, o motivo por estar ali e os motivos para estar a pensar em tudo isso, é um absurdo total, súbito e inesperado. A memória apaga-se e tudo leva com ela, aparentemente leva tanto que me leva a mim também.

Por breves instantes, uma ninharia como já disse, assemelho-me a alguém que não é nada, sou um cérebro consciente mas completamente orfão de função. O tempo e o espaço tornam-se duas variáveis indecifráveis, nada faz sentido porque nem eu faço sentido, naquele momento. Tal bizarria não me ocorre sempre, é evento raro até, facto que só abona a favor da sua singularidade, e nunca empreendi o esforço necessário para investigar e entender o fenómeno para confirmar se seria só a mim a quem um tal momento arrebatador acontecia, somos bichos de posses e invejas e ansiamos por coisas só nossas, verdadeira e unicamente nossas, precisamos de agarrar prémios mais palpáveis que as genéticas invisíveis e os traços indecifráveis de uma personalidade que alguns dizem também ser singular. A ciência, a senhora teimosa que nada deixa sem nome, não terá seguramente deixado escapar a oportunidade de descrever ao mais pequeno detalhe e, logo de seguida, baptizar esta peculiaridade nossa, sei que lhe chamam de eventos hipnagógicos, mas já pouco me interessam os costumes científicos e as suas metas, penso que a ciência nunca nos mostrará mais do que aquilo que queremos, o seu limite é, na verdade, o nosso, e o seu muito respeitado método nunca nos vai dizer aquilo que tememos, as respostas que não estamos prontos para ouvir.

Mesmo sabendo que, à partida, não seria dono supremo de um poder especial e por negar a existência de magias específicas do adormecer, gosto de acreditar naquele instante como o acordar de um eu original, livre de pressões e definições, perdido no espaço, no tempo e no momento, existindo apenas porque a massa deforma o espaço e o espaço deforma a realidade. São segundos mas podiam ser horas, tal a lei que não existe. O que é certo é que são segundos, três no máximo, e não dizem nada em relação a coisa alguma e, por mais que tente, não passam de um acaso fisiológico e funcional, ou disfuncional, de um corpo feito para viver e sobreviver e não para pensar e ruminar.

 

Ilustração retirada de STANFORD Magazine 

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