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Vilipêndio

Vilipêndio

30 de Julho, 2022

Abençoado silêncio

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Nossa Senhora do Silêncio

A recente notícia que nos chegou por parte do Patriarca de Lisboa, ao não comunicar às autoridades a denúncia de abusos por parte de um padre, é um assunto que diz-nos tudo o que precisamos de saber sobre uma instituição em total colapso já desde há alguns anos. 

É revoltante assistir a tamanha hipocrisia de quem se apregoa como porta-estandarte da honestidade, do bom-senso, da virtude, dos valores da família, de tudo o que mais sagrado e exemplar existe.

A hipocrisia de quem escondeu, durante centenas de anos, o sofrimento causado a crianças inocentes, que confiavam - tal como os seus pais e avós e tios - numa instituição que, gradualmente, começa a não ter nada para se respeitar sem ser as pessoas que fazem dela, ainda, o que é.

A cegueira perante a mensagem original de Jesus Cristo, a total impunidade de uma Igreja que serve os propósitos da sua elite e não da sua congregação de devotos e de todos os humanos, tudo isto transformou uma instituição naquilo que de pior pode haver.

É espantoso, senão mesmo inexplicável, como a Igreja Católica se mantém uma instituição com tanto poder e influência depois de tudo o que se tem sabido nos últimos anos. A forma como reagimos ao caso Casa Pia demonstra que, ao sabermos de uma instituição que supostamente devia acolher crianças mas que afinal as maltratava, nós sabemos como reagir. Mas com a Igreja nada é igual. A impunidade é muito maior, o peso são de séculos e séculos de influência.

Quando, há uns meses a RTP transmitiu o documentário da Opus Dei, tenho que admitir que fiquei assustado com tudo aquilo e, na altura, falei com duas ou três pessoas que sentiram o mesmo. Ficou-me bem gravada a doutrinação a que chega um grupo como aquele, a influência que tem desde o inicio da vida de uma criança e a bolha ideológica e social em que a cria e educa, tudo isto a juntar ao machismo, à perda de liberdades individuais e à manipulação constante. Isto só pode deixar qualquer pessoa desconfortável, no mínimo. 

Sempre respeitei a Igreja Católica sem nunca ser seu seguidor, respeito-a como respeito todas as religiões. Contudo, tudo mudou com o emergir de todo este mundo de abusos, silêncio e encobrimento por parte de uma instituição que devia fazer o oposto às crianças, o bem mais precioso que existe no mundo. Ou assim devia ser.

Pelo facto de, ainda hoje, ter o poder imenso que tem, a Igreja é uma instituição que cada vez mais teremos de olhar com desconfiança e a qual teremos de saber manietar de forma a que ela, com o seu véu e máscaras, não nos possa manietar a nós.

E teremos, certamente, um dia que entender o facto da Igreja ser um espelho de quem nós somos. E esse reflexo por vezes é muito feio.

 

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