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Vilipêndio

A urgência mediá... climática

Ilustração: Eric Lobbecke

Aos governantes pede-se-lhes que governem o país, aos políticos que façam a política e nós, que não somos nem uma nem outra, que continuemos a fazer o que sempre fizemos. Mas que engraçado que, no tema das alterações climáticas, tenhamos sido nós a fazer o trabalho de políticos, como se eles fossem cegos, surdos e mudos. E fizémo-lo nas eleições que, apesar de metade da população não o ter percebido ainda, é a única forma real que existe para lutar.

E nas últimas eleições europeias aconteceu algo importante quando o PAN de André Silva ganhou votos como não se esperava. Nesse momento, algo acordou dentro de António Costa, Rui Rio, Catarina Martins, Assunção Cristas, Jerónimo de Sousa e todos os outros brilhantes intervenientes do espaço público português. Todos perceberam que, a partir dali, as alterações climáticas, o ambiente e o planeta no geral, não poderiam deixar de sair mais do seu discurso, dos seus programas. Passou a ocupar uma parte substancial do debate político. 

Portanto, teve de haver um pequeno suspiro de semi-revolta nas urnas, com o voto muito substancial num partido que toda a gente vê como pouco provável tornar-se governo mas que todos entendemos que, a dado momento, era o único que ia de encontro com preocupações que lá fora, na Europa evoluída, já se sentam há anos em parlamentos, em números maiores do que um. O comboio chegou tarde aqui mas chegou. Torna-se, contudo, agridoce olhar para o papel rídiculo de todos os nossos intervenientes políticos nesta questão. Do que andam eles a falar durante horas e horas em frente a microfones e plateias quando tivémos de ser nós a dizer-lhes o que falar?

Agora é vê-los a tentar dizer "alterações climáticas" das mais variadas formas. Vamos desde "o problema do Clima", "urgência climática" a "questões do ambiente", ou de "salvar o planeta" a "salvar o futuro das nossas crianças". Temos também o "evitar a destruição da Terra" a "mudar de estilos de vida, rapidamente". Tudo isto entrou em todos os discursos políticos em Portugal, nos últimos meses. Sem que se veja muito mais que isso, obviamente. Fazem-me lembrar os papagaios que se lhes ensina algo novo e passam o tempo todo a repeti-lo despreocupadamente. Sem pensar em mais nada, sem ir ao fundo, porque - lá está - são papagaios.

Vai ser interessante acompanhar nos próximos anos a intervenção governamental que irá orientar todas estas discussões para o ar. Já sabemos que falar é bonito, ocupa boas horas de telejornal, perde-se muito tempo. Vamos ver quando for a hora de governar, legislar e mudar.

Estamos muito longe de deixar de ser um país dependente do carro, parecem inclusivé cada vez haver mais (principalmente neste crescente caos que é Lisboa), não estamos prontos para o que vai ter de se fazer tanto na capital como no Porto para tirar os carros da cidade, estamos a anos-quiçá-luz de ter uma população globalmente consciente das alterações climáticas, informada sobre o que pode e deve fazer. Os políticos não mostram a força que é necessária ter para lutar, dentro e fora de portas, contra poderes instalados e lobbies tão fortes como antigos. O seu discurso é pobre de significado tal como a cabeça pobre de ideias.

Vai ser díficil mas já há muita gente fora do círculo político predisposta a essa mudança. Somos nós. Agora só temos de convencer os nossos políticos que falar, só, não vai fazer nada.