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Vilipêndio

A prostituição da informação

Pawel Kuczynski

 

"O meu desejo de me manter informado está em guerra com o meu desejo de me manter são". Desde há uns dias, depois de ter visto esta frase algures pela Internet, que ela não me sai da cabeça. Estamos em guerra. Até pode ser uma guerra intelectual, sem canhões, países invadidos ou mortes sangrentas, mas pode também ser das mais importantes.

A informação foi um direito que adquirimos com o evoluir das nossas sociedades, como forma de propagar notícias, relatos, opiniões. Hoje, deixou de ser um direito e tornou-se um negócio de proporções assustadoras, e aquele através do qual se pode influenciar a opinião de um grande número de pessoas. É o meio através do qual se elegem Trumps, Bolsonaros, em que se votam Brexits e afins. Os media, que seriam os porta-estandartes da informação, tornaram-se arma poderosa demais para servirem só o bem. Já o Einstein o tinha concluído, há uns tempos.

Enquanto a Amazónia ardia há já duas semanas, as televisões continuavam a ignorar o assunto. Ele apenas ganhou notoriedade quando o mundo, ou quem o faz - nós -, começaram a falar sobre o assunto. Sem darmos por isso, a televisão, os jornais e todas as outras formas de media que actualmente conhecemos, passaram a fazer o papel inverso daquele a que se propuseram quando, há uns seculos, se inventou a imprensa. Agora somos nós que lhes temos de dizer o que realmente é importante.

Porque é que os jornais passaram horas a entrevistar pessoas em bombas de gasolina durante a greve dos motoristas? Haveria mesmo interesse público nisso, ou o interesse habita noutras moradas? Estou, há dias, a tentar digerir um directo da TVI onde foram chamados dois repórteres em directo, cada um numa bomba de gasolina diferente, para relatarem, num caso, "a completa normalidade na bomba" e, no outro, para nos mostrar que "este senhor chegou e não tinha fila para abastecer". Não sei se foi vergonha alheia que senti ou medo. A vergonha pelos cursos e as horas de estudo que estes repórteres hão-de ter gastado, ou o medo por antecipar aquilo que será a informação daqui para a frente.

Porque é que só se fala de incêndios quando existe a possibilidade de fazer um directo cheio de fumo e dramatismo? Nos outros dias, em que nada arde e tudo se podia resolver, o assunto não interessa? Porque se fazem centenas de chamadas com o público, que em princípio não há-de ser especialista na matéria - ou em qualquer matéria, por vezes - em vez de se debater com quem estuda, investiga e analisa? 

Será que é só o barulho que interessa?

Porque é que, na grande maioria dos canais, o futebol ocupa um terço das horas de noticiários? Será que é por interesse público ou, também aqui, o interesse é de quem ganha milhões de euros com um desporto que passou a ser uma indústria colossal? Porque é que pouco ou nada se fala noutros desportistas? Porque é que queremos saber tudo sobre o dia-a-dia do João Félix mas nem sequer sabemos onde treina o Fernando Pimenta ou o Nélson Évora? Provavelmente até queremos mas visto não existirem umas dezenas de pessoas a ganhar milhões de euros com isso, os canais de informação calam-se. E criaram esta realidade alternativa em que o futebol parece quase assunto de Estado e em que todos os interesses políticos podem ter influência. Basta ver que grande parte dos comentadores desportivos usam essas plataformas para se catapultarem para cargos públicos. Porque sabem que o português mistura a pertinência da discussão do penálti com a do combate aos fogos, já que grande parte da população vê a mesma atenção ser dada ao penálti e ao incêndio.

Já não se esconde a prostituição da informação, já é um facto inegável. Já só não vê quem não quer, quem não atinge ou quem não ouve. Os media, tal como nós fomos habituados a conhecê-los, morreram. Estão defuntos e, agora, cabe-nos a nós, mentes ainda sãs, lutar por um mundo onde se diga aquilo que a todos interessa e não aquilo que enche os bolsos a uns poucos.