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Vilipêndio

Vilipêndio

07 de Julho, 2021

A minha cabeça

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Há buracos que os escavamos nós com as nossas mãos e outros há que nos aparecem no fundo dos pés sem que tenhamos tido a arte de lá os colocar.

A cabeça que os meus ombros carregam há trinta anos é coisa para pertencer ao segundo grupo. É um buraco, sem dúvida, levo-a comigo mas não sei que raio de forças do universo, aleatoriedades místicas e decisões péssimas levaram a que existisse. Eu não fiz por isso, garanto. 

Estou ainda a acertar contas com isso, se me permitem.

Não tenho nada a ver com a minha cabeça e, ainda assim, ela comanda-me como se faz a um cão velho e cansado. 

Tenho sonhos que não sei de onde sonhei, sentimentos cuja explicação eu não vislumbro, medos que me fazem fugir do que nem vejo, amores que não são nem amor nem desamor, são uma tentativa falhada de fazer sentido com o que nasceu para não ter sentido algum.

Há uma guerra a ser guerreada nos confins da minha mente, ou cabeça, ou alma, ou âmago, uma guerra não de soldados mas de saudades, de tudo, do passado, do presente e do futuro que provavelmente nem será futuro deveras.

Saudades que lutam entre si, saudades do que foi e do que nunca poderia ter sido, obviamente, porque essa é, de longe, a melhor forma de sofrer estupida e gratuitamente. E, para tudo o que seja doentiamente inútil, está cá a minha cabeça. Ou estou cá eu, ou os dois, em uníssono e de mãos dadas.

A minha cabeça é invenção tão aberrante que, por sentir demais, o que decide fazer é sentir de menos. É como o pai que, com o honroso objectivo de proteger os filhos, não os deixa sair de casa, nunca. É isso que faço à minha cabeça e à minha pessoa. Sou o prisioneiro e o sequestrador, ao mesmo tempo. Como peço um resgaste que eu não consigo pagar, o sequestro mantém-se, o tempo passa e é só isso que sabe fazer.

E foi isto o que fiz à minha cabeça ou... o que ela fez a ela mesma? Não sei nem calculo que vá saber. São tudo questões complicadas e o tempo está bom demais para isso. Vou à praia. Impregnar o sol na cabeça na esperança que o calor lhe acorde a emoção, no lugar onde tem residência fixa a razão.