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Vilipêndio

Vilipêndio

10 de Dezembro, 2021

A importância das plantas

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Os meus tomates cherry algures no Verão 

Sou menino da cidade desde sempre, nascido e criado em Lisboa, na imensa capital desta lusa pátria, cheia das suas coisas modernas e rápidas e tão vazia de tantas outras, vazia de tudo o que me habituei a ignorar e dar como inútil. 

Cresci sem saber quase o que era o contacto com a natureza e os animais. Nunca soube o que é a apanha da fruta, a vindima, a matança de um porco, a arte do azeite, nunca vi ninguém fazer pão sem ser numa padaria, nunca enchi chouriços sem ser de forma figurativa, não soube nunca o que era uma horta sem ser as pobres coitadas que resistem em varandas. No fundo, o que sempre soube é andar de carro, ir a centros comerciais, ir a restaurantes, navegar entre prédios, estradas grandes, estradas não tão grandes, ruas que vão desembocar noutras ruas. Sei, também, muito de semáforos. O que conheci de animais foi os do Zoo, onde passei as melhores memórias da infância, e as árvores dos (muitos) jardins que por cá vamos tendo. O meu contacto com a natureza foi esse.

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As minhas malaguetas, em banhos de luz na cozinha

Hoje, aos 30 anos, muita coisa mudou. As necessidades mudam com o tempo, na mesma medida que o próprio tempo muda. A velocidade e os objectivos vão-se alterando com o passar das experiências, e isso é o que torna a vida coisa interessante. 

Quando o destino se juntou a um cancro e me tirou a mãe aos 24 anos, o efeito mais imediato - e que hoje vejo como natural - foi a completa obsessão que ganhei com plantas. 

Tenho plantas em todos os cantos da casa, agora. Desde esse dia trágico que, ao acordar, o que faço primeiro, antes mesmo de vazar a bexiga cheia, é o ir ver se tenho rebentos novos. Se tenho vida nova cá por casa. 

Subitamente dei por mim, menino da cidade, a saber sobre tomates, pimentos e o que precisa a terra para ser fértil. Sem que o tivesse previsto, dava por mim a desejar ter mais vasos, mais terra, mais sementes, para ver cada vez mais vida a surgir.

Hoje, passados cinco anos, já me oriento na arte como nunca pensei vir a orientar-me. Sei coisas e mais coisas sobre essa arte de namorar a natureza. 

À morte da minha mãe, respondi com uma necessidade imensa de vida. E as plantas responderam de forma fácil a essa necessidade. 

Hoje, obviamente, continuo a ser um ridículo menino da cidade, mas sou um que quer e precisa, acima de tudo, de mudar de vida e ir de encontro a coisas tão básicas e aparentemente tão insignificantes que, por cá, neste mar de tecnologia e inovação e barulho e carros nos habituamos a menosprezar. 

Claramente não estou sozinho nesta descoberta, há todo um mar de gente perdida na imensidão de cidades, a ir buscar, todos os dias, a vontade de descobrir uma vida mais ligada a processos da natureza, mais ligada ao que nos é dado com trabalho e atenção e não com a compra em dinheiro. 

As plantas, com a sua lenta velocidade, ignorando a urgência que assalta constantemente quem vive na metrópole, ensinam muitas coisas. A vida, e tudo o que é fantástico nela, não tem que vir rápido, tem sim que vir à velocidade que tiver de ser. 

Sou, apesar disto, um orgulhoso lisboeta, gosto com todas as forças da minha cidade, Lisboa são vários mundos num só e uma cidade cheia de vida. Sei, também, que a cidade não é só coisas negativas. Contudo, temo que nos tenhamos esquecido de olhar para o campo, o retrógrado e velhinho campo, e tirar as lições que ele dá.

A velocidade a que queremos viver, aqui na cidade, tornou-se incompatível com a mais básica felicidade humana. Pelo menos para mim, que já sou gente. Não hão de pensar todos da mesma forma, porque assim também não tinha piada nenhuma. Mas, aqui para este menino da cidade, saber ir buscar os pontos positivos que a vida no campo oferece tornou-se, para além de uma necessidade, uma necessidade urgente.

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Batatas, pequenas mas minhas

 

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