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Vilipêndio

Vilipêndio

04 de Julho, 2021

A comichão que faz uma bandeira

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Há uns dias descobri que tenho um primo (bem afastado) que é um autêntico grunho. É uma descoberta como outra qualquer, de importância discutível mas assinalável.

Como o descobri não é difícil explicar: bastou ver os seus comentários a uma publicação onde uma das maiores instituições deste país, o Benfica, punha o seu símbolo com as cores do arco-íris, essa vil e chocante bandeira que representa os direitos dos LGBTQ.

Ora, o grunho - o meu primo -, diz que está na hora de "acabar com essas tretas esquerdalhas" e refere, de forma absolutamente brilhante e pertinente, que "está farto destas merdas". A opinião do meu primo relativamente aos direitos LGBT é, como ja perceberam, de extrema importância. Pelo menos para ele. Quem está também farto de muita coisa é uma colega que me contou há uns dias que lhe fecharam a porta de um aluguer de uma casa quando perceberam que a mulher que a acompanhava não era a empregada mas sim a namorada. Deixou de ir acompanhada, porque tal como o meu primo está farta de muita merda. 

Ele é um homem de cerca de 50 anos e, fazendo as contas, percebe-se que nasceu já depois do século XVIII. Nasceu na década de 60, mas do século XX, por estranho que pareça. O meu primo tem dois filhos e, como está mais do que explícito, é um pai exemplar e que respeita as vontades dos filhos acima de tudo. Excepto, obviamente, se essas vontades forem coisas esquerdalhas que o Bloco de Esquerda anda a impingir forçosamente a toda a gente.

O grunho - o meu primo - não está sozinho. Basta correr os comentários por essas redes a publicações que tenham a ver com esta temática e rapidamente se verificam duas verdades: primeira, que a Internet está repleta de gente tóxica, opinativa, acéfala e cavernícola; segunda, que o meu primo é um autêntico grunho.

Gostava de reunir sociólogos, psicólogos, filósofos, escritores e historiadores e fazer-lhes uma simples questão: como é possível isto, correndo o ano de 2021? Como é possível que existam ainda pessoas, algumas delas ridiculamente jovens e com filhos, que acham que a homossexualidade de uns ou a transsexualidade de outros são matéria que lhes afecta a vida pessoalmente e contra a qual devem lutar arduamemte?

O egocentrismo, a literal burrice, a homofobia mascarada de conservadorismo e a ideia de superioridade são tudo coisas que fazem parte do manual de instruções do meu primo e de muito outras pessoas que estão cheias de si até aos cabelos. A narrativa que os direitos das minorias são "tretas esquerdalhas" é absurda e perigosa, vai ganhar volume e deve-nos fazer soar todos os alarmes. A divisão que se adivinha a partir daqui já a vimos bem representada nos EUA, Brasil e outros países demais e é o prelúdio para uma guerra cultural impensável há uns anos. 

Os direitos humanos não são de esquerda. A liberdade individual não tem cor política, apesar do que crêem os ressabiados deste mundo.

A homofobia nunca foi um traço da direita tradicional. Ou, pelo menos, da direita que conhecemos até agora.

Tudo isto é verdade mas tudo isto será cada vez mais discutível. Porque o mundo, para além de fazer pouco sentido, não parece estar a ir para um lugar melhor.

A única certeza que tenho em relação a isto tudo é que, de facto, o meu primo é um enorme grunho.

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