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Vilipêndio

Vilipêndio

23 de Agosto, 2022

Levem-me para o Norte

vilipêndio

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Não tinha muitos dias livres, tinha os dias suficientes para sair de casa e ir para algum lado, não muito longe, não muito complexo.

Decidimos ir ao Norte e ir um dia ao Paredes de Coura, um dos festivais que não conhecia. Sem carro, apenas de comboio e autocarro.

Começou-se em Braga, subiu-se o Bom Jesus a custo de muita perna e de muito músculo até então esquecido, fez-se aquele Escadório com a força de quem quer chegar lá acima seja por onde for. 

E lá em cima é bonito, é uma vista sem dono, são caminhos por dentro de mais caminhos. Um desses caminhos acaba no Santuário do Sameiro.

Esta coisa enorme, linda e imponente.

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E mais um Escadório subido depois, chega-se ao topo de um sítio sem palavras. Vê-se tanto Minho lá de cima que uma pessoa só pode ficar de boca aberta.

Braga é uma cidade com tudo o que se precisa. Sabe ser uma grande cidade sem ser uma metrópole descerebrada e caótica. Tem gente, muita, e boa gente. Tem juventude, animação. Braga é uma cidade a jogar um campeonato muito próprio e que assim continue.

Seguiu-se para o Paredes de Coura para passar uma noite no Taboão a ouvir boa música. Há muito que queria conhecer o paraíso de Coura, o evento que há anos junta o mais diverso tipo de pessoas, idades, vivências e experiências num local absolutamente único.

Tenda rapidamente montada, amigos novos feitos à velocidade do vento, um encontro enorme de gente em paz, calma, e com todo o tempo do mundo para saborear as pequenas coisas: as pequenas e grandes conversas, o aconchego do estômago com que comida for, o aconchego da alma pelo encontro com a natureza, o sol quente e o rio que refresca qualquer calor preso ao corpo.

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 Saindo do campismo, e do paraíso, chega-se ao recinto propriamente dito. É um local imerso de árvores, luzes e gente, muita gente. Muita gente animada e pronta a ser feliz. E tão fácil que é ser feliz ali, com aquela música e aquele ambiente.

Depois de uma noite com mais frio do que expectável - menino de Lisboa sofre sempre este problema - e uma tenda que apenas protegia de se morrer ao frio, a saída de Paredes fez-se cedo. Rumo a Viana do Castelo e à fantástica Romaria da Senhora da Agonia.

Nunca tinha ido a Viana, era a última capital de distrito em Portugal que me faltava, e não haveria melhores dias para isso. A Romaria é um fenómeno indescritível, de uma dimensão que eu não sonhava, que junta tanta gente, tanto sotaque, tanta música e animação.

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 Viana parece não dormir nestes dias, porque dormir é tempo perdido. São dias de intensa organização e festarola, dias de receber bem quem vem de todos os lados de Portugal, Espanha, França e afins.

O Norte português é especial, não é nada difícil chegarmos a essa conclusão estando lá. As pessoas são feitas de material distinto, vivem uma vida que, à primeira vista, parece ser igual a todas as nossas, mas não são. No Norte, as pessoas são mais pessoas.

Na hora da despedida, só queria que me me deixassem lá, algures. No Norte sou feliz.

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15 de Agosto, 2022

Chalanix

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Nunca saberei bem se era o seu tamanho, se era a sua personalidade, a sua imensa arte com uma bola nos pés ou se era, acima de tudo, o seu bigode, mas sei bem que Chalana, para mim, é sinónimo de futebol. Nunca o vi jogar - apenas nasci depois do seu apogeu -, mas nem sempre temos que ser contemporâneos de algo para podermos apreciá-lo, seja com que distância temporal for. 

E o Chalana morreu. O nosso real Astérix, o nosso mago, foi-se desta vida.

Não houve nenhum como ele, já não haverá certamente nenhum igual e há pessoas que conseguem essa proeza: a de serem únicas, muitas vezes sem saberem como. Chalana só sabia jogar futebol, e jogou como poucos o fizeram. Vê-lo jogar é ver um Messi de bigode a preto e branco. Ver o Chalana com vinte anos é ver a arte pura dentro de um campo.

Mas Chalana morreu, porque todos somos súbditos de um deus cruel. 

Leva o passado com ele, leva um passado bem passado que tinha bigodes e simplicidade. 

Era tão parecido a Astérix, que nunca ninguém soube bem que aldeia ele protegia de forma heróica. Quiçá tenha sido a aldeia de si mesmo, que lhe fugiu nos últimos anos e ele, finalmente e como todos os heróis, sucumbiu. A memória de ter sido um dos melhores na sua arte desvaneceu-se dentro dele mas, se há coisa que sabemos, é que todos vivemos para lá de nós. Vivemos nas memórias que deixamos e no eterno comboio da vida que nos escapa. Uma maquinaria onde nós não somos senão meros parafusos.

Muitos dizem acerca de Chalana o mesmo que se diz de muitos outros prodígios que não atingem um nível predeterminado de grandeza, "podia ter chegado mais longe". Mas o nosso Chalanix não precisou disso. A grandeza, tal como os homens, não se mede aos palmos e é nestas horas, em que os prodígios desaparecem, que percebemos isso.

O futebol existe porque há os Chalanas, porque a magia de uma bola em contacto com dois pés pode ser algo transcendente. Só isso nos pode interessar.

Chalana foi maior que si mesmo, foi um génio acidental, figura grande sem se aperceber, e nós estaremos cá para o relembrar.

01 de Agosto, 2022

Uma final e algo mais

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A final jogada ontem entre a Alemanha e Inglaterra, num estádio do Wembley completamente cheio, deu ares de uma nova era, de um novo começo. Teve tons de novidade num mundo que parece velho, monótono, aborrecido.

Começa logo no estádio em que foi jogada, mítica casa inglesa, e na quantidade extraordinária de público que uma final de futebol feminino conseguiu atrair. Tudo isto é novo, e é óptimo. A própria atenção mediática que foi dada ao longo do torneio é um fenómeno que conseguimos perceber facilmente ser novo.

Obviamente que Portugal não é, no que toca a cultura desportiva, igual a Inglaterra ou Alemanha - nem sequer a Espanha. Ainda esta semana, Duplantis (atleta sueco) bateu o recorde do mundo em salto à vara e no dia seguinte, nenhum jornal português fazia referência a isso na capa. Em Espanha, os 3 principais jornais faziam referência com foto. Relembro: era um atleta sueco e não espanhol.

Pode parecer coisa pouca, mas diz muito da forma como consumimos desporto, como o nosso interesse é direccionado e como tornámos o desporto em Portugal quase todo acerca do futebol e de todos os pormenores que o envolvem, mesmo pormenores que nada têm a ver com o jogo jogado.

O desporto em Portugal não está de boa saúde, quiçá nunca esteve. Estamos muitos furos abaixo, somos demasiado centrados num só desporto e num só desporto praticado por um só genero. Fazemos constantemente do desporto um conflito, uma discussão, o clubismo é parte essencial disto de ser fã. 

Havemos de chegar onde estão os outros países mas é triste percebermos esta distância.

Num dos meus últimos textos neste blog, fiz referência a uma crónica absurdamente rídicula de António Saraiva, figura sempre em destaque no jornal SOL, e que parece ter perdido o sono com esta coisa de mulheres jogarem futebol.

Ora, ontem não há de ter sido um bom dia para este nosso amigo. A festa foi completa, a atmosfera fantástica, o desporto-rei foi bem homenageado ao longo do torneio e principalmente na final de ontem.

O futebol feminino veio para ficar. A qualidade do seu futebol é indiscutível e merece ter o mesmo palco que o futebol masculino. Aos homens que, das suas grutas primitivas, não conseguem aceitar esse facto, só posso desejar boa sorte. Podem sempre fechar-se na gruta e deixar-se estar lá indefinidamente, todos agradecemos.

E quanto a Portugal, temos ainda muita estrada pela frente. Ainda não amamos o desporto. Amamos o drama do futebol (masculino, claro) e o resto vem tudo por acréscimo. Mas tenho a certeza que, no dia em que conseguirmos ter a mesma mentalidade que ingleses ou alemães ou suecos, seremos candidatos a ganhar tudo.

Fotografia: Franck Fife / AFP - Getty Images