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Vilipêndio

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27 de Abril, 2021

O vinte e cinco, Marcelo e o Abel

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JOAQUIM FURTADO

Hoje, ao voltar do trabalho, já depois das nova da noite, entrei no comboio que liga o Rossio a Sintra, escolho o sentar e deparo-me com um senhor de idade, sem máscara e visivelmente embriagado. Fui a viagem todo intrigado com aquele homem até que decidi perguntar-lhe em que estação iria sair, visto que ele estava entre o cair de sono e o cair de bêbado. Ele respondeu a mesma estação em que eu iria sair. E assim conheci o Abel.

O Abel é um ex-combatente da Guerra colonial de 75 anos e vive numa rua paralela a uma estação. Sozinho, apenas com o álcool, porque morreu-lhe o cão.

Fui conhecer a casa, ou a triste amostra disso, do ex-combatente Abel e o que se sente é uma dor aguda numa zona escondida da alma. Cartões empilhados em cartões, tralha por cima de tralha, tudo ao ar livre, tudo frio. Assim, no meio da rua. Ao guiar-me até lá chorou várias vezes, seja por eu estar a tentar ajudá-lo, seja por se lembrar da guerra, dos filhos ou do álcool - o cabrão do álcool. Explicou-me, também, nesse caminho, que já tinha sido visitado pela protecção civil e pela polícia mas que, depois disso, nada aconteceu. Contou, voltando sempre ao mesmo assunto, como os soldados na guerra gritavam todos - todos! - pela mãe no momento do aperto, tal como ele gritara mais do que uma vez. Eu disse-lhe que já não tinha a minha, ele deu-me os sentimentos, mas perguntou-me se tinha paizinho. Disse-lhe que sim e ele confortou-me.

O único pertence deste ex-combatente, o qual me fez questão de orgulhosamente mostrar, é um pequeno saco com fotos antigas. Fotos da filha bebé, do Cunhal, dele próprio e da guerra. Sempre a guerra, essa maldita guerra. 

O Abel é um homem de 75 anos que, apesar da sua fragilidade, grita ainda hoje "Sou um ex-combatente do Ultramar", contudo fá-lo para um país que não o ouve, que fez por esquecer um passado e as pessoas que o fizeram. 

 

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

O discurso de Marcelo Rebelo de Sousa na Assembleia da República neste 25 de Abril é, por isso, um momento definidor na nossa democracia. É um momento superior de um político que sabe ser superior. A mensagem que transmite em relação à leitura da nossa História é colossal e resume, de forma centrada, medida e inteligente, a forma como deve ser encarada a História de um país, do nosso país, vivida hoje por nós mas escrita por muitos que já não estão cá.

Foi uma lição de moderação e assertividade política de um extraordinário falante que pareceu, por uns momentos, elevar-se a um patamar dificilmente alcançável por boa parte das gentes políticas que vemos hoje. Contudo, mesmo a Marcelo e mesmo depois de um discurso como aquele, fica a sensação que é curto. As palavras sem acções valem de pouco para quem leva com chuva na cama. É preciso fazer mais. 

O 25 de Abril é sem dúvida o maior momento do último século português, mas não foram só os cravos e a liberdade que marcaram essa revolução. A essa revolução todos devemos estar profunda e eternamente gratos, mas é dela também que temos de tirar as maiores lições. Os motivos que levaram a que a barbárie em África fosse possível são tão maus como as consequências atrozes para uma geração quase inteira de homens que perderam a vida ou a sanidade no cenário de uma guerra evitável. 

O Ultramar foi uma tragédia para muita gente, gente demasiado nova e inocente. Gente demasiado boa que nunca mais o voltou a ser. Como a minha mãe, uma retornada de Angola que fugia dos ataques dos negros. Ou o Abel, que foi mandado para lá para matar indiscriminadamente esses mesmos negros.

A nossa História como nação e como povo é tudo, do bom ao mau, mas as pessoas são quem mais deve contar sempre. Para isso, precisamos de as ouvir, de as apoiar mas, acima de tudo, precisamos de nunca as esquecer.

 

Que viva sempre o 25 de Abril e que o poder esteja sempre do lado do povo.

20 de Abril, 2021

Viragens perigosas

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Agora que está confirmada a escolha de Suzana Garcia como candidata do PSD à Câmara Municipal da Amadora, podemos, definitivamente, afirmar que se inicia uma nova era na direita portuguesa. A viragem é aquela que toda a gente já esperava, a que se tem visto por todos os cantos desse mundo, dos EUA ao Brasil e um pouco por toda a Europa.

A política está, passo a passo, a tornar-se numa política de espéctactulo, de gritaria, uma política em que ganha, não o mais pertinente, não o mais inteligente, mas aquele que fala mais alto e que diz as maiores polémicas.

Suzana Garcia tem a postura política e as opiniões de um acérrimo votante do Chega, com bastante referências a limpar escumalhas, a dar cabo desses bairros e dessas gentes menos recomendáveis. Era esse mesmo o assunto que os jornais esmiúçavam: porque é que uma candidata ideal do Chega aparece como candidata do maior, mais histórico e mais tradicional partido da direita em Portugal?

Quais as motivações políticas por trás desta decisão do PSD? Está o PSD a concorrer à Câmara da Amadora com uma pessoa abertamente racista, apenas por isso? Como se a dizer à "população de bem" do concelho que está na hora de "limpar" a cidade? Ou fá-lo como estrategema político, sabendo, à partida, que a candidata não representa o partido mas aproveitando-se do fácil populismo do qual ela se alimenta e da consequente exposição mediática que tem?

Ou é tudo isto uma forma da direita dizer que está atenta a Ventura, ao seu eleitorado e à mensagem que ele passa? 

Como pode o PSD rejeitar, a partir de agora, qualquer associação com o partido de extrema-direita quando, depois de incubar Ventura há uns anos, gera agora uma Suzana Garcia? 

São muitas questões mas seja qual for o verdadeiro motivo, parece um passo atrás. E há passos atrás com os quais é preciso ter cuidado. 

O PSD formaliza a candidatura de uma pessoa que utiliza todos os estratagemas possíveis para nunca dizer a palavra "pretos" quando fala da cidade da Amadora, mesmo que o grite de outra forma, uma candidatura cuja ideologia política aparentemente assenta na ausência de uma, baseando-se apenas na divisão "nós" e "eles" que é tão saudável, tão evoluída, tão erudita. E que tão bons resultados tem deixado, ao longo da história. 

Alguém que, se puder, corre com esses "bandidos" todos a tiro. Que é a forma como ela diz que entraria "nesses bairros". 

É essa a candidata de um dos maiores partidos do país a uma das maiores câmaras do país. A câmara da minha cidade, onde nasci e cresci. Uma cidade que me enche de orgulho pela multiplicidade de culturas que alberga e pela muita e rica vida que tem. Uma cidade que merece políticos melhores, que consigam perceber que não se pode enfiar, como se fez há décadas atrás, milhares de pessoas a viver em bairros e esperar que a criminalidade e a delinquência nessa população seja a mesma. 

Se há problemas com bairros e com quem lá vive? 

Há, sim. Mas está mais do que na hora de percebermos que a propensão para o crime e a violência nada tem a ver com a melanina que nos está agarrada à epiderme e é capaz de ter mais a ver com o ambiente onde crescemos e os recursos e oportunidades que temos na vida. Na escola, ao longo de muitos anos, o que mais me fui habituando foi a ver a diferença entre a minha vida e dos meus amigos e a de todos os outros, os bandidos. Os bandidos cuja mãe trabalhava das 7 às 23 para pôr pão na mesa e cujo pai morrera cedo e que, na escola, queriam apenas jogar à bola como todos nós e ver uns rabos de saias. Os bandidos que, desde que são pessoas, vivem enfiados em bairros inundados de pobreza, de droga, de tudo o que é mau. Porque alguém os pôs lá, ou aos seus pais ou avós, para esconder um problema real, para não misturar as pessoas de bem com quem vinha lá daqueles países. 

Vamos dar as mesmas condições, as mesmas oportunidades a toda a gente e depois logo fazemos essas contas dos bandidos e meninos de bem e deixemos, entretanto, o discurso supremacista branco para o Bolsonaro e o Ventura. 

A história do PSD merece melhor, os eleitores de direita merecem melhor, a Amadora merece muito melhor, mas quiçá - e essa é a questão mais preocupante - a política portuguesa não mereça melhor.

PS-Deixo a recomendação de um livro que me foi aconselhado por um caro bloguista (e fotógrafo) do Sapo (Orlando Figueiredo). White Fragility de Robin diAngelo. É tão inspirador quanto difícil de encarar, está mais baseado nas questões sociais americanas mas, ainda assim e porque o racismo não muda muito com a latitude, explica muitos fenómenos que estão por trás do discurso a que se agarram políticos com poucos escrúpulos mas com uma esperteza astuta, e que mostra como as nossas sociedades têm muitos passos a dar ainda no que toca a igualdade de oportunidades. 

10 de Abril, 2021

Esta farsa Justiça

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FOTO EXPRESSO / D.R.

Ontem, sexta-feira dia 9 de abril de 2021, dois mil e trinta e três dias depois da detenção de José Sócrates no aeroporto de Lisboa, vimos cair por terra as acusações de corrupção das quais, entre outros, o antigo primeiro-ministro era acusado pelo Ministério Público.

Ontem foi o dia da anunciada morte da Justiça portuguesa.

Depois de mais de um ano em que vimos pessoas morrerem em hospitais cheios, em que milhares de pessoas perderam os seus negócios e o seu sustento, em que perdemos liberdades em prol do bem-comum e da saúde pública, vimos agora como a Justiça continua a ser uma piada neste país e como, realmente, quem rouba cem euros é ladrão e quem rouba um milhão é esperto. 

Muito já se escreveu sobre a deliberação do juíz de instrução Ivo Rosa e muito mais irá, certamente, ser escrito nos tempos vindouros. Eu tentei não o fazer, juro, porque estou farto deste processo, estou farto de José Sócrates, de Vara e Granadeiro, estou farto de Ricardo Salgado e de todos estes insidiosos cancros que se apoderaram dos quadros mais importantes do poder político e económico do nosso país.

Sei, também, que vivemos uma era em que toda a gente parece ser especialista em quase tudo. Tenho tentado, a muito custo, não fazer o mesmo, até porque me tem faltado tempo para tirar todos os cursos e doutoramentos que, subitamente, parece que 90% das pessoas têm.

Não sou juíz, não sou sequer minimamente especialista em processos judiciais, muito menos destes chamados mega-processos. Não estou, sequer, por dentro de toda a prova e de toda a acusação, não tive acesso às mais de seis mil (!) páginas do processo. O que sei (e não tenho qualquer pudor em dizê-lo) é o que toda a gente sabe.

Mas é preciso escrever sobre isto. 

Muito se foi sabendo, ao longo destes anos todos. Sócrates passou quase a ser uma anedota. E por mais que não seja especialista, qualquer pessoa minimamente atenta consegue entender que, no mínimo dos mínimos, José Sócrates mostrou uma abismal falta de respeito e de ética para com o cargo para o qual foi eleito e que representa um dos pontos mais baixos da história da nossa democracia.

E isso já não é pouca coisa.

Mas muitos viam esta Operação Marquês, um dos maiores (se não o maior) processo judicial da nossa história, como um possível marco histórico no século XXI português. Um momento de singular importância e de viragem. Um momento em que, finalmente, a política era vergada pelo poder imparcial e cego da justiça e em que os Donos Disto Tudo eram confrontados com os seus mais vis actos.

Muitos acreditavam que seria uma oportunidade para o país dar um passo em frente no combate à sistémica corrupção que o corrói há anos. Os mesmos, quiçá, que criam que esta pandemia iria trazer o que há de bom em nós ao de cima, que nos ia fazer evoluir globalmente como sociedade. 

E tal como com a pandemia, estavam errados.

Todo este processo tornou-se um verdadeiro circo e a imagem perfeita do nosso país e da nossa Justiça, que mostrou estar terrivelmente doente, retrógrada e disfuncional. Por um lado, José Sócrates consegue chegar a esta fase com a possibilidade real de interpôr junto do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos uma queixa contra o Estado pela forma absurdamente demorada como foi preso sem acusação, por outro lado, a Justiça deixa José Sócrates, o primeiro-ministro no mundo mais preocupado com fotocópias, livre de responder pelo crime de corrupção. E isso é uma facada gigante na credibilidade do sistema judicial, uma que obriga a repensar todo o sistema de início ao fim.

Não é, de todo, difícil perceber quem ganhará com isto. Os sentimentos anti-sistema que nasceram há anos e que se agudizaram com o advento deste processo e das suas mil e uma particularidades só podem sair engrandecidos.

André Ventura e o seu populismo barato ficam a ganhar e quase me apetece dizer-te, a ti Portugal, que mereces isso. 

A Justiça é o maior e mais central pilar deste cada vez mais frágil sistema chamado democracia. Por cá, esse pilar parece estar a ruir.

 

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Ilustração de Christophe Marques @ not_from_