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Vilipêndio

Nunca um Python morrerá

Terry Jones não morreu. Garanto-vos.

Nao é para todos: se há os que não vivem e depois morrem, há uns que vivem e depois não morrem nunca.

Enquanto existirem pessoas - e as deixarem rir -, é impossível que morra quem criou o que ele ajudou a criar. Basta verem o que veste o cabeçalho deste blog (se o virem sem ser pelo telemóvel) para entender muito do que guia esta parcelazinha da internet a que chamo o meu blog.

Aqueles que, por meio da sua arte e engenho, nos tornam o caminho que é a vida ligeiramente mais suportável não morrem, posso assegurar-vos. Não é sequer fisicamente possível. A memória e a lenda ocupam espaço, têm um peso, são objecto palpável. 

Portanto, chamem negação - ou outro fenómeno das psicologias modernas -, chamem parvoíce, infantilidade, chamem o que quiserem, mas uma coisa garanto-vos: Terry Jones não morreu.  

Acreditem.

Terry Jones não morreu. 

É tudo brincadeira.

 

Já tinha escrito, há uns tempos, sobre Terry Jones e a sua brilhante demência.

Há notícias que mais vale a pena enfiarmos num buraco muito longínquo e escuro da alma.

Guerras e guerrinhas

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Ilustração Lolli Bomb de Christophe Marques @ not_from_  |

 

Há quem brinque com a pilinha, há quem brinque com a vida - a sua e a dos outros -, e há quem brinque com bombas nucleares.

Seria de esperar que quem brincasse com as pilinhas fosse menos inteligente que os últimos, os que brincam com bombas de destruição maciça, mas aparentemente não.

Está tudo ao contrário, afinal.

Nós, que brincamos com as pilinhas, é que estamos certos.

Brinquemos, pois, até que rebentem com isto tudo, os outros.

Causas e consequências

O Dakar e, principalmente, o desporto português estão de luto. Paulo Gonçalves, motard português que cumpria o seu 13° Dakar, sofreu uma queda seguida de paragem cardiorrespiratória e não resistiu.

Não havendo muito mais para dizer sobre o tema, senão enviar as óbvias condolências a familiares e amigos, partirei para aquilo a que chamo o desígnio deste blog: o mal-dizer.

Ontem, os jornais A Bola e O Jogo fizeram capa com a morte do piloto português, assim como todos os sites e canais noticiosos deram ampla cobertura ao acontecimento. Já começam a adivinhar para onde vai este texto, não já? Se não, eu continuo.

Para contextualizar, então, começarei por dizer que sou homem de hábitos, nomeadamente de hábitos matinais. A coisa tem toda que correr muito bem para os chackras se alinharem. E um dos hábitos que tenho, logo quando o dia desperta, é o de ver as capas dos jornais do dia, como muita gente, calculo. Precisamente, aqui no Sapo, onde isso está tão bem organizado e actualizado que não se pede mais. Vai desde as capas nacionais às internacionais, do desporto aos generalistas. E, de entre as milhares de conclusões que se pode tirar ao ver as capas dos jornais diariamente, uma que se pode tirar facilmente é a de que, em Portugal, no que toca a desporto, no que toca a jornais, no que toca a atenção, existe futebol e pouco mais. Este já é assunto velho, já todos sabemos dizer a lenga-lenga do "somos o país do futebol", "não se dá atenção a mais nada, é uma vergonha". Para entender isto, diga-se, já nem dois dedos de testa são necessários. Agora, se fazemos alguma coisa para mudar isso, todos nós? Parece-me que não. 

Contudo, desta vez pareceu-me particularmente criticável ou, mesmo, ridículo. A morte, essa sim, é o maior desporto em Portugal, não há dúvida disso. Essa vende em todo o lado, a qualquer momento.

Em Espanha, os jornais dão, há anos, uma atenção muito importante ao Dakar, fazem uma cobertura extensa e, por arrasto, com muitas chamadas de capa, tal como fazem para vários outros desportos. O mesmo fazem vários jornais franceses e alemães. Em Inglaterra, o cricket e o rugby ocupam um lugar de grande destaque, ao lado, claro, do futebol - provavelmente, o melhor do mundo. Por essa Europa, o ténis é um desporto mesmo, o basquetebol uma importante modalidade, a motoGP e a Fórmula 1 existem mesmo, são analisadas e discutidas. O desporto é uma multidão de coisas, de desportos, de atletas, de equipas, de tamanhos e formas de bolas. 

Por cá, onde recentemete foi criado (mais) um canal para falar exclusivamente de futebol, parece que existem cinco desportistas extra-futebol. Falamos da motoGP para falar do português que lá anda, falamos do ténis quando João Sousa brilha num qualquer torneio, falamos de basquetebol e rugby quando... Bom, não falamos. E isto, se me permitem, é uma tremenda saloiice.

Somos um país com excelentes atletas, mas somos fraquíssimos na visão que deles temos. Somos muito bons no futebol, não há dúvida, mas dói a alma quando, num serão no sofá, se correm quase dez canais e todos eles estão preenchidos com painéis a discutir a nova fase do julgamento de Alcochete, qual o tipo de lesão que o Pizzi tem no dedo mindinho, entre outros assuntos que estão a quilómetros do jogo jogado. Nem sequer queria fazer menção a isso, mas somos o país que condecora um treinador de futebol porque ganha uma Taça Libertadores (quiçá justamente, não me cabe a mim decidir) mas se alguém nos disser que quer viver do Rugby, do Judo ou do Basquetebol nós, pura e simplesmente, pensamos em loucura.

É certo que nuestros hermanos têm o Nadal no ténis e tiveram o Alonso na Fórmula 1. É certo que os franceses têm grandes tenistas e os ingleses têm um dos melhores rugbys do mundo, mas a pergunta que deixo é esta: será isso causa ou consequência da forma como se olha para o desporto?

"Nova" vaga

A recente vaga de violência contra profissionais de saúde não é, antes de tudo, uma vaga e muito menos é recente. É o que sempre foi, não é por agora se fazer escândalo e últimas-horas! de tudo que passam a existir vagas.

Sou profissional de saúde e até sei do que falo. Trabalho numa Urgência Central, essas novas casas de horrores. Nunca levei no osso, andou lá perto, mas já vi levarem no osso, isso é certo.

Isto é tanto um problema como uma vaga. Não é.

É um pormenor, um detalhão que nos define e, para o destruir, não haverá Martas Temidos suficientes, reportagens especiais que cheguem e análises detalhadas que façam o trabalho.

Trabalhando onde trabalho, sou espectador de situações-limite. No limite da capacidade de sofrimento humana e no limite da sua estupidez, também.

Se há quem nos tente dar dinheiro por fazermos bem o nosso trabalho, muitos há, na mesma proporção, que nos queiram arrear com uma cadeira porque apenas conseguimos fazer o nosso trabalho. Se há quem nos queira dar beijinhos, há quem nos queira dar murros. Muitas vezes sem nada mudar nos entretantos de ambos. É assim a espécie humana. É assim, muito particularmente, a espécice lusitana.

Há uns dias, quando estavam perto de uma centena de pessoas em espera para serem vistas, uma senhora no corredor dizia, a peito aberto para se ouvir bem, que estavam todos sentados lá dentro a descansar a fazer figura de parvo de quem esperava, lá fora. Claro que não havia nada disso, era alguém que, no seu compreensível aborrecimento por um serviço que funciona pessimamente, decidiu dedicar o que lhe restava de energia a criticar aqueles que faziam o seu trabalho, em condições inaceitáveis, para que ela fosse uma das próximas a ser vistas.

Quis-lhe perguntar se dedicava a mesma energia no dia de votar. Ou se, à noite, se dedicava, também, a ver notícias e a ler jornais. Pelos números da abstenção, e dada a audiência das novelas, é tão fácil como doloroso prever.

Que haja, nestas situações, por vezes, tareia metida ao barulho, não surpreende ninguém. Não deve acontecer mais do que noutros sítios neste país. Também há uns dias, vi no Pingo Doce uma senhora insultar uma miúda de 20 anos que estava na caixa porque a zona de congelados era a "mais suja que alguma vez vi". A uma miúda que nada tinha a ver com isso, que estava a uns 100 metros dos congelados e que, para além disso, estava claramente no início do seu trabalho.

A estupidez não é uma vaga. Existe e sempre existiu. Por cá, continua só a existir mais do que noutros sítios. Enquanto assim formos, por muito que a medicina evolua, para a estupidez humana continuará a não haver remédio. 

 

Vinte-vinte

Os anos continuam a mudar, o tempo não sabe parar e a gente vai e nem se vê ir.

O dezanove agora é vinte, o Dezembro passou novamente a Janeiro, o Sol nasce do sítio de onde sempre nasceu, o mundo preserva todos os seus defeitos, as suas virtudes, as cores e os sons. Tudo muda quando nada muda.

 

Bom ano a todos e obrigado ao Sapo por ter destacado, esta semana, este meu texto, por todo o significado que ele tem. Por não escrever - ou não me dedicar - aqui com a regularidade que queria, farei dessa uma das resoluções para o ano novo!