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Vilipêndio

Três anos

Hoje passam três anos.

As datas, os calendários, os anos, os dias e tudo o que usamos para dar medida ao tempo, tudo isso pode ser invenção nossa, ilusão infantil de ter controlo no que não se controla, mas isso não apaga o facto de hoje se cumprirem três anos.

Há mil e noventa e cinco dias caiu-me um braço. E assim fiz estas três voltas ao sol, com um braço apenas, o outro perdeu-se numa guerra contra o destino, e homem que é homem aguenta-se só com um braço. Mesmo com nenhum, se os azares da vida assim o ditarem. Somos espécie que se adapta bem. Mesmo que tentemos, infrutíferamente, escapar ao abismo e, principalmente, à fragilidade da existência.

As mães não deviam desaparecer, assim como não devia acontecer muita coisa. É demasiado caos e aleatoriedade para alguém compreender. As mães, porventura, não deviam morrer, assim como o mundo devia viver em paz. Enquanto se puder escrever, todas as realidades são possíveis. A nossa imaginação é fértil, chegamos inclusivé a inventar anos para pôr em calendários. Saibamos aproveitar isso e saibamos, também, entender que, por mais mundos inventemos, o tempo não será nunca nosso. É isso que o mundo nos diz quando faz aquilo que faz todos os dias.

A minha mãe morreu há três anos. Tinha cinquenta e cinco anos. A vida dói, faz-se acontecer e não pede licença. Lidem vocês com isso porque eu desisti.

E dêem, sempre que podem, um beijinho à vossa mãe.

É fogo que arde e se vê

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Não bastou morrerem pessoas. Não bastaram a tragédia de Pedrogão e o 15 de Outubro de 2017. Não bastaram os desvios de dinheiro para as vítimas dos incêndios. Não bastou o embaraço nacional que foi o SIRESP. 

Nada disto bastou. E por isso continua-se a ver o país arder. Continua-se a ver pessoas a apagar fogos com baldes, a gritar por ajuda. Continuam-se a ver directos em frente das chamas como se mostrar o fogo ajudasse a apagá-lo. Continuam-se a ver bombeiros de rastos, poucos, cansados. Continuam-se a ver os mesmos equipamentos, no mesmo número. E continua, para certeza de todos, a haver gente a ganhar com tudo isto.

Mudam-se os anos mas o cenário é sempre o mesmo. Deixem-me que diga, sem engasgos: é uma vergonha.

Fogo existe em todo o lado do mundo, incêndios são (poucas vezes cá) incidentes naturais e não é vergonha nenhuma tê-los. Vergonha é a resposta que Portugal tem para tudo isto. Parecemos um país de brincar. Se existem milhões para a banca e para empréstimos milionários a detentores de garagens, já não se pode aceitar mais que continue a haver tão pouco para aquilo que está a roubar o verde a vida da Beira portuguesa. Tem que haver mais dinheiro para tudo o que signifique a salvaguarda de terrenos e florestas, e a aposta definitiva na capacitação dos bombeiros e de todos meios de ajuda. Já percebemos todos, há algum tempo, que é um dos maiores problemas do país. Mesmo não acontecendo em Lisboa ou no Porto, o que pode chocar a maioria dos políticos. E quando existe dinheiro e vontade existe um grande número de problemas que se resolvem. Admitamos que não há vontade de resolver isto. É um bom primeiro passo. 

 

Felizmente algum trabalho se fez. Nem toda a vida se rege pelo diapasão da política e, por isso, muita gente, nesse Portugal meio interior e meio esquecido, fez por limpar o seu pedaço de terra. Muita gente fez o seu trabalho. Mas, mais uma vez, quando precisavam de salvar tudo, perceberam que o país não fez o seu. 

 

Fotografia: Lusa

"Quem sou eu?"

O Facebook foi multado em cinco mil milhões de euros. Parece muito, não é? Depende do ponto de vista. A ver pelos resultados da bolsa do Facebook, a coima que lhes foi atribuída é tão curta e, ao mesmo tempo envia para debaixo do tapete tanta coisa, que os investidores olharam para isto tudo como uma bela forma de valorizar a empresa. É fantástico, mas ao mesmo tempo assustador. Cinco mil milhões de euros é muito dinheiro (é, inclusivé, a maior multa de sempre da Federal Trade Commission) mas é o preço que a empresa tem de pagar para continuar a fazer cinco mil milhões a cada mês (sim, é esse o valor mensal de receitas da marca de Zuckerberg). As outras questões, secundárias, acerca da privacidade, do acesso à informação dos utilizadores, ficam todas para segundo plano. A multa está paga. O assunto está resolvido. Os investidores podem continuar a fazer os seus milhões.

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Então e a Google, que ouve conversas privadas? Escândalo? Nem por isso. Só uma notícia mais. Já todos nos habituámos a esta nova realidade. Os nossos dados são cada vez menos nossos e mais do mundo. Pertencem a todos. São um bem que, sem darmos por isso, valem milhões. Nós nunca vemos um euro que seja deles, mas dizem-nos que assim temos anúncios mais personalizados, uma experiência mais pessoal quando estamos na Internet. Contudo, agora que a Internet deixou de ser uma coisa nova, agora que a discussão acerca dos nossos dados privados já leva uns anos de existência, começa a ser possível enxergar melhor o que se passa no mundo da tecnologia e, mais especificamente nesta fantasia em que o Google e a Facebook enfiaram milhões de pessoas. E o que se passa não é a experiência do utilizador na Internet ou, sequer, a publicidade e os rios de dinheiro que dela advêm. O que se passa é que este grupo específico de empresas percebeu, por terem sido elas as pioneiras na área, que mais valioso que os nossos dados, mais importante que a publicidade e, inclusivé, mais vital que o dinheiro é a capacidade de ter armazenada a informação pessoal e os diversos hábitos de uma porção muito importante da humanidade. É o novo ouro, e eles foram os primeiros a percebê-lo.

A Google e o Facebook já não precisam de dinheiro nem de poder. Já estão noutro patamar. Eles querem, literalmente, as nossas vidas.