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Vilipêndio

O sequestro continua

 

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Até quando se vai fingir neste país que o que se passa com as greves de comboios (e do metro, por arrasto) é tudo normal? Até quando se vai brincar com as vidas e o dinheiro de milhares de pessoas? Até quando a imprensa vai ocupar-se a falar perifericamente da situação? Até quando todo este circo? Passam dez anos desde que esta situação se vive e se isto não é uma vergonha nacional não sei o que pode ser. Parece uma brincadeira de muito mau gosto, que se repete até ao ponto em que já não mora lá piada nenhuma.

Quem del comboios precisa para ir para o trabalho e vê a sua vida, de uma forma ridiculamente frequente, virada do avesso depois de pagar e confiar num serviço não é gente que muito interesse. É uma pequena ralé que só tem de levar com isso e calar, a greve é um direito e tal. Os outros vão de carro e vão muito bem.

Passam os anos, os governos, os comboios, ninguém resolve nada, ninguém decide nada, e o sequestro em que amarram os seus clientes (e não só, deixam a cidade num caos que só pode afectar a grande maioria das pessoas) continua. Este é o melhor quadro do país que parece que é tudo e, na realidade, é muito pouco.

Obviamente, Bolsonaro.

 

 

Há uns tempos, num restaurante em Coimbra, conheci um rapaz brasileiro que me contou a história da sua vinda para Portugal e como acabou a ser empregado de mesa num restaurante na cidade dos estudantes. Dada a pouca afluência do restaurante e a desculpa de uma boa conversa, a nós se juntou e falámos durante toda a refeição.

Brasileiro é assim. Desempoeirado, prático e muito conversador. 

Começou por dizer que tinha vindo há poucos meses em onda de desespero, de vale tudo, a si mesmo dizia que só voltaria ao Brasil no dia em que passasse fome em Portugal. Com alguns truques de conversa foi fácil chegar ao porquê de tal desespero. Um dia, ao fechar a sua loja no centro de São Paulo, por volta da meia-noite, é abordado por dois meliantes que lhe pedem tudo e mais alguma coisa. Depois de dar a carteira e o telemóvel, gera-se uma confusão em relação ao carro, um deles acaba a tirar uma arma do casaco, aponta-a à sua cabeça e dispara. A arma encravou e a história deste brasileiro de 30 anos pôde continuar. Os ladrões, que por esta altura podiam ser assassinos, fogem a sete pés e deixam um homem, congelado de choque, a viver uma vida nova. Contudo, o trauma veio para ficar. E ficou. Tanto tempo foi que desistiu e veio para Portugal. Onde, como ele me disse, "vocês nem sonham a sorte que têm em poder andar de relógio na rua". Hoje, jura a pés juntos que nunca mais voltará ao Brasil, é lá que o trauma mora.

 

Bolsonaro não ganhou apenas porque o povo brasileiro está farto da corrupção. Também é resultado da vontade insaciável que os brasileiros têm em andar para a frente, de crescer ao ponto em que andar na rua de relógio não é motivo de problema. Cidades como o Rio, São Paulo, Bahia, entre outras, merecem dar um salto em frente que começa a ser inadiável ao olhar do brasileiro comum. Em nome disso, arriscaram tudo. A verdadeira democracia quiçá só vale a pena até valer a pena. 

Pouco interessou o historial de agressões ao bom-senso que Bolsonaro traz na bagagem, nada disso impediu o impregnar da ideia de rompimento com o PT, a sua cúpula e a corrupção. Tudo o que bastava era um discurso de mudança, radical, uma postura séria, incorrompível. Um militar, ou alguém que a isso se assemalhasse. Alguém que anunciasse a mudança, a tão ansiada mudança brasileira.

E a mudança aí está. 

Dá medo pensar no que ela trará ou para que direcção levará o Brasil, se definitivamente para a frente ou irremediavelmente para trás.

 

Urbicídio

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Ilustração Urbicídio Christophe Marques @ not_from_

 

 

O homem é bicho de matar. Seja uns aos outros ou a bichos de outro tipo. Matamos inclusivé as sedes e as malditas saudades. Mas a mim nada me fazia prever que conseguíamos destruir urbes. Cidades inteiras. 

A estratégia foi brilhante: pôr matraquilhos em vez de pessoas, guias no lugar do cérebro, roteiros em vez de rotinas, fotografias aqui e acolá, hostel em cima de hostel e deixar o destino fazer o resto. O nosso fado, no fundo. The fade, como já deve ser chamado.

A seguir sugiro meterem fotografias do Instagram em cada casa, ratings do tripadvisor nas esplanadas dos cafés, passar todos os cafés e restaurantes para nomes em inglês que não café e restaurante, e a vida pode ser assim simples.

Podemos também encher a cidade de pessoas que auferem três vezes o salário do comum e casas a preço de dois salários mínimos, vai fazer bem à saúde de todos certamente.

Juntem tudo que vai dar uma bela salada. A cidade, Lisboa, entretanto há-de ter deixado de ser cidade para passar a ser um circo de encenações. 

Até pode haver exagero em tudo isto, mas se estamos a conseguir matar um planeta inteiro, por que não uma cidade?

 

(Um enorme obrigado a quem desenhou - e me deixou utilizar - a ilustração e o nome para este post, pelo brilhantismo com que traduz este fenómeno) 

Tanto barulho, gente.

 

 

 

 

Uma das mais curiosas histórias que me contaram recentemente aconteceu na estação britânica BBC, no longínquo ano de 1930. Nessa altura a televisão era ainda fascínio de gente doida e produto de bruxaria, pelo que as notícias chegavam à família comum pela rádio. Era momento solene, ouvido com a maior das atenções. Não demorava mais do que uns minutos, mas era ali que a família ficava a par dos acontecimentos no país e no mundo. No dia 12 de Abril desse ano, contudo, no boletim das 20:45, a BBC emitiu apenas um comunicado: “Hoje não há notícias”. Só isto, terminando de seguida o programa para dar espaço ao som de piano que era apanágio da estação nesses remotos passados.

Um dia sem notícias. Tentemos imaginar. Não dá, pois não? Tentar imaginar um dia que culmine num anúncio destes parece mentira, faz pensar que nesse dia o planeta não girou e que o sol nem se deu ao trabalho de se levantar. 

O que é certo é que os dias sem notícias continuam a existir, mas infelizmente há dez canais de televisão para encher, e outros tantos jornais, rádios, revistas e sites.

Este post, tal como o que anteriormente debitei sobre toda a temática Ronaldo, vem na sequência de uma passagem fortuita pela SIC Notícias, à hora do programa dedicado a ouvir os telespectadores. Era inteiramente dedicado a esse nevrálgico tema, e nos cinco minutos em que consegui aguentar aquilo pude ouvir um espectador, um militar de 25 anos, dizer algo muito semelhante a "Mas vocês não têm mais nada para falar?" e "Falem do preço da gasolina e dos salários, por exemplo".

Foi interessante. Deu para perceber que aquele espectador não sabia nada acerca das actividades sexuais de um jogador de futebol, o que por si é de lamentar, mas também percebemos que preocupam-no mais os euros que mete no depósito, ironicamente bem mais que os vizinhos espanhóis, ou quantos euros mete no bolso ao fim de cada mês de trabalho, provavelmente menos que os hermanos

Isto são as preocupações das pessoas. As coisas que mexem na sua vida. Os euros que saem e os que entram. Supostamente era para isso que serviam os media, para dar voz às pessoas, e com isso fazer a sociedade andar para a frente. Mas o que vemos é um alimentar de tendências, sensacionalismos e obsessões. 

Falar muito nunca foi tão contrário a falar bem. 

Ronaldo? Não sei.

 

 

Cristiano Ronaldo é um jogador de futebol. É isso. Não há muito mais a dizer. Como informação extra, podemos ainda dizer que é um dos melhores nessa arte e que se tornou, sem sombra de dúvidas, o atleta mais conhecido a nível mundial. 

Estou a defendê-lo das acusações que ele agora sofre? Não sei, não me ataquem já! Não faço a menor ideia. Tenho coisas muito mais interessantes para pensar. Se me vierem falar de um golo do Cristiano Ronaldo, de bicicleta ou triciclo, eu até posso alinhar porque é por isso que eu falo dele. De sexos anais e afins, tenho preferido outras fontes ao longo do tempo.

Não sei de onde vem esta maníaca curiosidade por tudo o que é privado e mediático na vida pessoal seja de quem for. Há canais televisivos a alimentarem-se disso, de não-notícias e de esquartejamentos à privacidade. Seja o Ronaldo ou a Josefa do quarto-esquerdo, não faço tenções de saber mais do que me é devido. Não há nada nestes assuntos que se possa retirar como conclusão, não há uma lição para a nossa evolução como espécie. É só uma muito triste bisbilhotice.

Começo a achar que os tribunais deviam deixar de existir. São retrógrados, ocupam muito espaço, e já que estamos numa de modernices, vamos acabar com isso de ter juízes, advogados e privacidade e vamos começar a julgar todas as pessoas nas redes sociais, nas caixas de comentários de sites noticiosos, em painéis informativos variados, em discussões com especialistas de todo o género. Vamos dar esse passo em frente como sociedade. 

 

Parece que é obrigatório ter uma opinião acerca da vida pessoal de um futebolista. Ora se vislumbram soldados da defesa do menino herói que nunca poderia ter feito nada de errado, tudo uma cabala claro, ora entram em cena os defensores da verdade e da defesa dos direitos da mulher, do sexo, do sexo anal, do piriquito e da piriquita.

Ora, eu não queria ser chocante, mas eu estou-me a marimbar para isso tudo.