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Vilipêndio

Estados Perdidos da América, etc...

Volto a deixar este post que debitei aqui em Novembro do ano passado e faço-o porque as palavras que o escrevem me parecem bastantes actuais. E essa actualidade, essa absurda actualidade, imposta sob os corpos de demasiados inocentes, não parece querer deixar de o ser. 

As palavras, e o facto de as usarmos para falarmos, nem sempre nos chega, mas pior que isso é saber que, para sermos ouvidos, nem morrer nos chega. 

 

 

 

Gun Country, Michael Murphy

 

É difícil imaginar quão árdua será a tarefa de se ser americano e, ao mesmo tempo, ter um cérebro funcionante. A dor excruciante de ver pessoas a morrer sem fim apenas porque um lunático, um mal que contrariamente à opinião de alguns americanos chega a todos os países do mundo, tem acesso livre a um verdadeiro arsenal legal de armas. Em autênticas lojas, no meio de uma qualquer rua. 

Tal como a maioria dos assuntos políticos que brotam actualmente, este só faz crescer uma vontade de reagir pelas vidas que se perdem no meio do processo. Aquilo que realmente interessa neste jogo de vontade e poder, de tudo e de nada.

lobby das armas nos Estados Unidos é tão forte que é imensuravelmente forte. É impossivel compreender a existência de um interesse maior que o próprio governo americano, que ultrapasse a barreira do voto público e se torne intocável mesmo por cima do sangue de tanta gente. Contudo e infelizmente, apenas isso justifica a total ausência de legislação num país que já teve presidentes de todas as vertentes políticas. Que por ali, diga-se, não são assim tantas.

Todo este assunto só seria realmente incompreensível se não se tratasse do país que, entre fake news e empurrões do lado Putin da Força, fez eleger uma coisa chamada Donald Trump. Mas como o país é esse mesmo, resta-nos ter pena daqueles pobres coitados que levam um cérebro em cima dos ombros.

 

Venha o Mundial

 

O futebol serve para tudo, desporto de sete ofícios, é um escape da vida e, simultaneamente, um espelho dela mesma, com todas as suas incongruências e batalhas vãs.

Mas em Portugal, este país que alberga um dos melhores jogadores da história deste desporto, este bocadinho de terra que é campeão da Europa em título, este é um desporto que vai da paixão à loucura em menos de nada. Aliás, as duas andam de mãos dadas há várias décadas, germinando uma cultura que, bem vistas as coisas, está presente em muitas coisas da sociedade portuguesa. A constante guerra, a desconfiança generalizada, a manipulação de tudo e todos, a imagem que é diferente da acção, o fingimento de todas as palavras. 

 

Ontem em Alcochete o Sporting viveu um dos seus piores dias, mas o futebol português já não vive sequer, está morto, enterrado e é um zombie. Mataram-no bem morto. É uma amostra de desporto, é futebol travestido. Se não fosse a nossa Selecção, o nosso futebol era só mais um motivo para carregarmos esta tão nossa vergonha. Por isso, venha o Mundial. 

O dia de quem a tem

 

Uma mãe faz a falta que o oxigénio faz à vida, a sua ausência não se explica por nenhuma ciência, e se um dia específico criaram para a sua celebração não há adjectivo nem substantivo que defina todos os outros dias em que ela já não existe, esta estrada que ela já não percorre. Não há textos que resolvam nem aceitações que enterrem a dor de já não ter quem mais interessa, a primeira pessoa de todas, aquela que nos abriu as portas do mundo, de tantas formas como possíveis.

Todos a têm, na fria prática, mas há quem nunca a tenha deveras tido, e isso são lacunas que desmentem a própria vida, mas quem tenha tido a sorte de chamar mãe a outro a ser humano, sabe que, no momento em que essa palavra deixa de ter uso, parte do presente desfaz-se á nossa frente. Não ter mãe é caminhar sozinho, essa triste sina, e contar apenas com as memórias, essa frágil fronteira entre o real e o imaginado.

Mas que todos os dias, mesmo este, sejam de memória e celebração. Porque uma mãe não morre, não deixa de existir, não desaparece nunca. Apenas deixa de ser visível a olho nu. 

 

Este é o meu post 100 neste blog. Não sei bem quem me ouve, a quem chego, e que palavras tocaram ou tocarão alguém que as leia. Sei que este post faz todo o sentido ser dedicado à minha mãe, e a todos que já o leram, comentaram e apreciaram. Aproveito também para deixar um obrigado ao Sapo pela oportunidade que nos dá de mostrar a nossa voz. 

Leiam muito. Escrevam também. E todos os dias dêem um beijinho à vossa mãe.