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Vilipêndio

Vint'cinco

 

Já é maior de idade mas continua meio perdido na vida. O vint'cinco que chegou sem aviso, mas aguardado há décadas, silenciado pelo correr da vida, ou pelo não correr da vida, que chegou pelas mãos dos mais fortes, mais capazes. O vint'cinco salvou a vida a muita gente, salvou a cabeça a uma nação, e escreveu a sua história em linhas diferentes. Não derramou sangue, porque assim são as verdadeiras conquistas, as definitivas, e assim se mudou o andar e o sonhar de todos. 

Mas agora que é adulto bem crescido, o vint'cinco sofre uma crise de meia idade. Como a todos aflige, esta crise grita por mudança, anseia por um passo em frente, que por cá, como o próprio vint'cinco é prova, não é coisa fácil de se fazer. 

Celebremos o eterno vint'cinco, e a sua vinda ao nosso mundo, e esperemos ansiosamente pelo vint'seis. 

A demência do Facebook

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Poucas coisas serão mais angustiantes que vermo-nos rodeados por zombies do scroll, sentados numa mesa em que todas as cabeças estão baixas e mortas, aparentemente mortas, é impossível de saber porque ninguém dá mostras de vida. Esta é a doença do século XXI. Pode ser, como muito gostam de chamar, a doença viral do século XXI. 

 

Ainda assim, o Facebook parece iniciar, como qualquer astro que sobe bem acima do céu, a sua fase de auto-destruição. E é bom que assim seja. A dimensão e o campo de gravidade atingiram um ponto máximo, as raízes já nem se vislumbram, esta é a história de um site que passou de site a empresa e de uma empresa que passou a jogador político, e logo do mais alto nível. A influência que o Facebook, e a partilha cirúrgica de informação e contrainformação, tiveram na vitória de Trump nas presidenciais americanas é espelho perfeito da manipulação que nos permite explicar, em parte, a sua eleição. Por muito que pareça um angelical estudante universitário, Zuckerberg será sempre o homem que vendeu os dados de mais de 80 milhões de pessoas para proveito de agentes políticos de reputação bastante duvidosa. E mesmo que a história seja bem mais intrincada que isto, será esta a narrativa da História. 

 

O Facebook pode ter uma base totalmente benigna e socialmente positiva, mas a utilização em massa e ao segundo tornaram aquilo que seria uma excelente plataforma numa espécie de segunda pele. fizeram da vida um palco de cacofonia, de opiniões mascaradas pelo anonimato, ressabiamentos, falsas notícias, falsas verdades, de uma perversão egocêntrica do tamanho do mundo. O nome do bar, a rua, quem foi, o que se comeu e o que se bebeu, que pontuação merece o restaurante, tudo isso são coisas que nunca interessaram. E a razão é simples: porque não interessam. Há quem já não saiba o que é o quê. Se o gosto é igual ao gostar, se a foto é o mesmo que o olhar. Ou se o verdadeiro é mesmo verdade.

 

Mas que tudo isto tenha sido um percalço no caminho, e que as cabeças se voltem a levantar, e ganhem vida.

 

 

Armas químicas, mísseis e cirurgias

 

Muito se tem falado, e bombardeado, nos últimos dias devido ao armamento químico, suposto até ver mas mais que provável, do regime sírio e o seu uso contra alvos civis. Mais uma mancha na triste história de um conflito num país que encerra em si as querelas entre muitos outros países, enredos com várias décadas de alinhamento, estratégias para todos os gostos. A condenação desse acto, o último acto de cobardia de Bashal Al-Assad foi, tal como expectável, generalizada e foi seguida por uma série de ataques cirúrgicos, em que o cirurgião é um caça de 30 toneladas e o bisturi corta na específica forma de uma bomba. 

Não se vislumbra grande sentido em bombardear um país que, nos tempos que correm, poucos edíficios deve ter que se aguentem erguidos perante o destino, o terrível destino que se lhes é apresentado. Mas pelo que se ouve da opinião pública, o uso de armas químicas ultrapassa, de facto, a linha e não deve ser só recriminado como também directamente atacado. Faz lembrar as Armas de Destruição Maciça, assim mesmo, em maiúsculas. Parece que há guerras que ultrapassam o limite e armas que já são armas demais. As químicas apesar de fazerem o que as outras sempre fizeram usam um método quiçá mais assustador, mais científico. E por isso são de repúdio total. As outras que matam de uma forma mais rústica, sem coisas que assustem, mas que consigam tirar de igual forma a vida de uma criança, são diferentes. Em quê? Não sei. Mas o que nos dizem é para escolhermos as guerras com cabeça, para usarmos armas que matem de forma mais silenciosa, usando múltiplos adornos, floreados vários, esconderijos óbvios. Há varios jeitos de matar, várias intensidades de se tirar o respirar e o viver a alguém. 

É díficil que se ganhe uma guerra, e salvar a população que lhe sobrevive, quando antes da existência real ou não de armas químicas, a certeza que existe é que não houve nem haverá qualquer noção da realidade, qualquer toque com a realidade. Fala-se de gente como de pedras da calçada. E esta outra gente, os Trumps e as suas intermináveis demonstrações de inutilidade, esses habitantes de outro planeta mas que mandam no rodar deste, esta gente que carrega nestes botões que separam a vida da morte, vive numa dimensão que, de tão grande que é, se torna minúscula.