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Vilipêndio

Não te demores, Zé

Zé, parece que te foste. Não sei se acredito ainda mas vou fazer um esforço. 

Será quiçá tarde demais, mas apetece-me dizer-te que a tua guitarra não se calará nunca, porque há acordes que o são para sempre e os teus acordes foram e serão vida, deram e darão cor a todas as vidas que existiram e existirão. 

Zé, não devias ter ido.  Nós por cá não sabemos bem o que fazer. Menos felizes, mas continuaremos com a certeza de um porto seguro criado por ti e os teus compinchas, uma luz que parece ficar pequena demais ao pé deste túnel mas que vocês, e tu com essas tuas mãos de ícone, nos ajudam a manter viva. 

Zé, vai lá, mas não fiques aí muito tempo. Vê lá se voltas e trazes a tua melhor amiga. Aquela com a qual escreveste histórias, alegrias e gerações inteiras. 

Estaremos cá à tua espera. 

A praga das pragas

O que o cancro faz não se faz.

E o que podemos fazer em relação a isso é nada, obviamente.

Deixou de ser uma doença e passou a ser uma quase inevitabilidade, um destino certo, escrito algures numa página de toda e qualquer vida. Dê por onde der, em que altura for, o cabrão sempre aparece. 

Fá-lo de uma forma traiçoeira, injusta e silenciosa, assemelhando-se ao larápio que rouba e não se vê. Um larápio que rouba tudo ao roubar a vida, e que não escolhe as vítimas, porque aparentemente todos nós o fomos, somos ou seremos.

A injustiça que transporta e a dor que arrasta são de uma dimensão sobrehumana, conseguindo transformar a vida num jogo, um triste jogo, em que tentamos derrotar com forças que não temos um monstro que não conhecemos, sem cara mas imparável. E o pior dos inimigos que podemos ter é, sem dúvida, aquele que não vemos nem tocamos.

O cancro é, ao mesmo tempo, a antítese e o espelho da vida. É a sua derradeira negação e a sua triste confirmação. E, como todas as coisas que preenchem esta ilusão da vida, não faz absolutamente sentido nenhum. Constitui a mais literal e física realização de que a vida não vale de muito e, que por isso mesmo, vale tudo.

O cancro é um filho da mãe. Infelizmente, a sua mãe é ligeiramente maior que as restantes. Merece, por isso e acima de tudo, o maior dos respeitos, como todos os filhos desta mãe chamada Natureza. Deve obrigar-nos a olhar para tudo com outro par de olhos e dar-nos a certeza que, por ser de matéria tão facilmente quebrável, a vida deve ser preenchida apenas com o objectivo de sermos e nos fazermos felizes uns aos outros.

Ao João Ricardo, ao Pedro Rolo Duarte, ao Manuel e à Maria, a todos os que demasiado cedo se foram. Ao meu avô. À minha mãe. Como nos ordenou um dos nossos maiores, a todos estes devemos o favor de ser felizes. 

 

 

 

 

Ao menos chovem "notícias"

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Quando tudo for um deserto, rezemos para que sejamos capazes de comer pedaços de défice. Porque a fazermos de camelos - há que dizê-lo - tornámo-nos dos melhores. 

Façamos figas para quando a torneira se apagar todos nós consigamos matar a nossa sede com copos de notícias virais e as nossas vacas vivam de comer falsos moralismos. 

Esperemos que quando tudo arder, o ar secar e o verde morrer, algum responsável político resista para lá ir e garantir que tudo será feito para que no ano seguinte não se repita. Resista, também, um jornalista que possa ir lá e fazer a pergunta errada no momento certo. 

Rezemos muito. Porque pouco mais sobra.

Estados Perdidos da América

Gun Country, Michael Murphy

 

É difícil imaginar quão árdua será a tarefa de se ser americano e, ao mesmo tempo, ter um cérebro funcionante. A dor excruciante de ver pessoas a morrer sem fim apenas porque um lunático, um mal que contrariamente à opinião de alguns americanos chega a todos os países do mundo, tem acesso livre a um verdadeiro arsenal legal de armas. Em autênticas lojas, no meio de uma qualquer rua. 

Tal como a maioria dos assuntos políticos que brotam actualmente, este só faz crescer uma vontade de reagir pelas vidas que se perdem no meio do processo. Aquilo que realmente interessa neste jogo de vontade e poder, de tudo e de nada.

 

lobby das armas nos Estados Unidos é tão forte que é imensuravelmente forte. É impossivel compreender a existência de um interesse maior que o próprio governo americano, que ultrapasse a barreira do voto público e se torne intocável mesmo por cima do sangue de tanta gente. Contudo e infelizmente, apenas isso justifica a total ausência de legislação num país que já teve presidentes de todas as vertentes políticas. Que por ali, diga-se, não são assim tantas.

Todo este assunto só seria realmente incompreensível se não se tratasse do país que, entre fake news e empurrões do lado Putin da Força, fez eleger uma coisa chamada Donald Trump. Mas como o país é esse mesmo, resta-nos ter pena daqueles pobres coitados que levam um cérebro em cima dos ombros.