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Vilipêndio

Marcelândia

O actual presidente da República é, para mim e para todos que não o conheçam no foro pessoal, um político. Dos bons, crê muita gente. "Este ao menos aparece!", dirão outros. "Este só quer aparecer!", também se ouvirá.

E estando já na história da política portuguesa pós-Abril, Marcelo Rebelo de Sousa não passa apenas disso: de um excelente político. Contudo, muitos dos adjectivos usados para o descrever sofrem de um exagero normal de quem não está habituado a uma personalidade política com a força e a impetuosidade de Marcelo. 

A forma de comunicar é disruptiva por ser directa, faz aliar uma abordagem não convencional dos assuntos a uma vocação pedagógica inata, sem esquecer a constante sensação de movimento que transmite. Marcelo não se limita a fazer política, consegue também fazer a política. À sua maneira, seja certa ou errada, mas que é concerteza preenchida por uma racionalidade sem fronteiras. Marcelo prova que aparecer não chega, é preciso levar uma mensagem na bagagem.

Mas o confronto com a liderança dói. Ou, melhor dito, o confronto com a verdadeira liderança. Aquela que se faz ver por palavras que não estão vazias de sentido. Costa sentiu isso na pele, como todo o Governo. Criticar, agora, a posição que o presidente tomou dá a sensação de ser mais um doloroso reviver do falar para o ar, enquanto tudo arde. E arde tão literalmente que dói. Se há um sítio onde existe necessidade de pôr coisas e pessoas em cima de outras coisas e pessoas, esse sítio é Portugal. Fazemo-lo por vontade e tradição, ou apenas porque nunca nos ensinaram de outra forma. Levemos isso a sério então. Olhemos para os bons exemplos de cima, sabendo o que fazem bem e, acima de tudo, o que fazem mal. Porque para os maus exemplos não há jornais nem telejornais suficientes. Não há revolta que chegue.

 

O fazer, mesmo que seja para aparecer no primeiro plano do telejornal, não deixa de o ser. E quando falamos de fazer político, são poucos os que conseguem fazer frente à dimensão da mensagem que o presidente da República consegue transmitir de forma quase diária ao comum do cidadão. E ao Governo também, aparentemente. Através do simples acto de agir. 

A política tem sido construída em cima de frases feitas, promiscuidades e gestos pensados, e não de empatia, proximidade e comunicação. E, entre acertos e desacertos, essa é bem capaz de ser a mensagem política de Marcelo.

 

O inferno existe

 

Foto: Gonçalo Delgado / Lusa

 

Afinal Pedrogão não foi a única machadada deste Verão. Havia mais. Havia um 15 de Outubro para acontecer, um 16 também. E todos os outros dias de um Verão que trouxe um calor que nos aproximou das portas de um inferno real demais para se poder descrever.

Mais uma vez pudémos aclamar os heróis que correm na direcção das chamas que tudo levam pela frente, levando a mangueira numa mão e a alma na outra, porque esses são os nossos únicos heróis. E eles existem, e são muitos, e são quem merece a primeira palavra de qualquer texto.

Os incêndios, um problema que tem barbas de velho, passou este ano a ser o principal assunto, um ao qual deixou de se poder fugir e não agir. Exige-se acção, rápida e concreta. Como eles fazem nos países grandes e crescidos. Aos políticos, e ao sistema político no geral, pede-se seriedade, estratégia, aplicação correcta de fundos, sentido de dever e de responsabilidade mas, acima de tudo, acção. 

Começando pela etiologia dos fogos, saber se existe mão criminosa parece ser um caminho pouco claro, do qual pouco se fala, sobrando um anonimato para os criminosos que não se vê na grande maioria dos crimes. E isso até pode ser de louvar, mas não se isso significar a impunidade do mesmo. As penas aplicadas são, no mínimo, pouco dissuadoras e permitem, muitas vezes, a reincidência. Existem, para além disso, graves falhas - culturais ou não - na educação do agricultor, do empresário, do proprietário do terreno, do turista, do comum cidadão. Há falhas em todos os lados, mas as falhas só existem até surgir uma solução, e a solução tem um caminho, com um início, um meio e um fim.

Parece haver em Portugal uma tendência muito fastidiosa para não saber responder ao que nos é dado e posto em frente às vistas. Qualquer animal minimamente evoluído usa essa capacidade e fá-lo como método de sobrevivência, processo que se pode definir como adaptação. Em Portugal, e muito particularmente no que toca aos incêndios, não se vê isso acontecer. Existe um problema, recorrente e de há décadas, que ou é grande demais ou não há vontade para o resolver.

Falhámos. A quem morreu, a quem viu a casa arder, o trabalho a arder, a aldeia a arder, uma vida a arder sem a ajuda de um bombeiro ou de alguém que seja. Contando apenas com o balde e a mangueira. 

A essas pessoas o país falhou tragicamente.

P.S.- Custa ver o que aconteceu nos últimos dois dias no país, às suas muito humildes populações e belezas sem igual, na mesma semana em que soubemos os 31 crimes de um ex-primeiro ministro, que conseguiu criar uma rede de influências e de desvio, lavagem e aquisição de bens financeiros juntamente com alguns dos mais poderosos agentes politicos, empresariais, bancários do nosso país. Algo está a falhar redondamente, e não é díficil enxergar o porquê.

 

Catalunha, Isaltino e tanto mais

O domingo que passou não foi um domingo qualquer. 

Começando nas nossas lusas terras, ontem foi dia de ouvir os portugueses, que é como quem diz pouco mais de metade dos portugueses, porque a voz só se ouve na ponta de uma caneta e a caneta não está assim tão perto. A abstinência é, no final de todas as contas e descontas, a grande vencedora, como quase sempre é. Passando ao lado da esperada queda do PSD e a mais que provável tradução nacional que terá no partido, consequência de uma política sem política, aceitando e esperando para ver que faz Medina com a sua maioria e Rui Moreira com o seu Porto, é importante notar o regresso de Isaltino Morais. A comédia e a tragédia são duas irmãs anciãs, velhas de conviver, e fazem-nos tanta falta como o ar que respiramos. Isaltino é a piada que vive dentro de uma piada bem maior que, no final de contas, piada não tem nenhuma.

Mas não foi só por cá que as canetas, as cruzes e as incertezas foram tema maior. Na Catalunha houve tudo isto elevado a uma dose de violência que só pode envergonhar tanto catalães como espanhóis, como quase toda a gente. A possibilidade e a liberdade de ouvir uma população em relação a determinado assunto é suposto ser um dos alicerces desta democracia, que é espanhola e portuguesa, italiana e americana. Esta democracia quiçá errada, quiçá imutável. Madrid não deixou a voz da população catalã ouvir-se, colou as canetas à mesa, silenciou as cruzes e a história está cheia de provas de como isso costuma acabar. O resultado viu-se ontem. Não se sabe bem o futuro da questão, mas sabe-se o que fica do passado, do domingo passado: a imagem de uma Espanha frágil, silenciadora, antidemocrática.

Entretanto, pelo que dizem, houve até futebol do bom ontem. Empates que deixam tudo na mesma, como se de eleições se tratassem. Mas estes empates deram mais tarde, como deve ser em dias de eleições, não vá a gente esquecer-se de ir votar.