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Vilipêndio

A riqueza por detrás dos Montes

 É curioso como tudo começa com uma conversa sobre conhecer a Europa e os Estados Unidos que terminou com a pergunta do meu pai "Então mas e os Trás-os-Montes?".

Não era preciso pensar mais e comecei, desde aí, a planear uma escapadela lá para cima. Agarrei o braço do meu velho, que nem o é assim tanto, e na sua carrinha e fomos fazer 1500 km por essas bandas.

E aquelas bandas são das melhores bandas que o nosso país tem. Viseu, Vila Nova de Foz Côa, Vila Real, Mirandela, Bragança, Vinhais, Chaves foram alguns dos sítios por onde passámos. A imensidão da estrada que nos caminha até cada cidade ou vila é avassaladora, mas a beleza das paisagens que engolem cada uma dessas estradas é simplesmente indescritível. Apenas a lente do nosso olho (e de uma boa máquina se puder ser) consegue fazer sentido a um sem fim de verde, montes, natureza, de terra selvagem, virgem e dona de tudo. Ali quem manda não é a nossa falsa superioridade, é o monte que chegou lá bem antes. A terra manda e isso vê-se facilmente nas pessoas, no seu falar e agir. O respeito por algo maior, pelo próximo e pela vida é mais fácil de ter quando estamos rodeados de provas que algo bem maior existe. 

Atravessadas quase sempre por um rio, estas cidades de um Portugal distante vivem uma vida igual em tudo mas diferente na velocidade. Tudo é igual, menos a pressa, esta nossa pressa de chegar a lado nenhum, mas primeiro que os outros. Há mais tempo e disponibilidade para uma conversa de ocasião, uma piada ou um sorriso, a simpatia não é cara e está na cara. 

Venho de Lisboa, a capital de tudo, da confusão, do trânsito, dos turistas, dos preços altos. E da boa vida, da noite que não dorme, dos festivais. Vive cada vez mais, tem cada vez mais, de tudo o que é bom e de tudo o que é mau. Lisboa é, hoje em dia, quase tudo e isso pode tornar-se uma enorme confusão. 

Passando pelas estradas do Portugal que existe para lá dos montes, aprende-se algo muito importante com as pessoas e a vida de quem lá vive. Uma forma de andar diferente, por diferente ser a vista dos seus olhos e das suas janelas. 

 

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 Praia Foz do Sabor

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Praia do Azibo

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 Vila Nova de Foz Côa

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 Vinhais

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Beijós

 

 

"Não quero brincar assim"

Uma criança descobre a vida de formas que fogem à razão, aprende lições da mais pequena batalha, descobre verdades primeiras, inventa perguntas sem se preocupar muito com a resposta. Como qualquer visão inocente e pura, a visão de uma criança sofre apenas a influência do instinto e do sexto sentido, assuma ele uma qualquer das suas invisíveis formas.

Pela inocência e pureza de espiríto, é com uma boa dose de desilusão que, em crianças, vamos recebendo as indicações e a lista de regras que fazem parte da brincadeira de viver. Uma atrás de outra, cada indicação que uma criança aprende e repete são consecutivos travões na arte do instinto e do sexto sentido que vinha aprimorando desde o início do seu mundo neste mundo, e são uma auto-estrada de pensamento estreitado e visões curtas que segue rumo a um destino que, para todos os efeitos, é de poucas brincadeiras.

Por isso, quando uma criança aprende qual o jogo que vai realmente jogar, só pode responder não quero brincar assim. Mas apenas o dirá enquanto o vir como um desafio e uma luta. Chegará, depois disso, tão certamente como a lua e o sol, o momento da aceitação. Porque a vida é um jogo com o qual, no final de contas, ainda vale a pena brincar.

Brinquemos.

 

O racismo em Portugal

American Denial 

 

PUBLICO - Racismo em português

O trabalho que o Público lançou, nas últimas semanas, relativamente ao racismo em Portugal é um feliiz oásis no meio da barulheira que tem sido a comunicação social impressa e, pior ainda, os media televisivos nos últimos (conturbados) tempos. 

O racismo em Portugal existe, é um facto. Todos somos capazes de o perceber, de o assumir como plausível. Contudo, este racismo é tão real quanto a ausência de diálogo que dele advém, assusta tanto ou mais que o simples facto de se conversar sobre ele. O resultado do estudo apresentado no caderno do Público revela que somos o país dos incluídos na investigação onde maior número de pessoas considera haver uma superioridade genética entre raças. O que fazer com este resultado? Assumi-lo como tão valioso como qualquer estudo, que pode ter ou não validade cientifica e significância estatística? Tudo é melhor ideia que ignorá-lo. 

O racismo em Portugal é histórico, de livro de escola, ancestral, do avô e do bisavô. Não se fala sobre ele, mas aprende-se com ele, de bem perto. Crescemos bem junto a ele, mas sem que daí surjam grandes conversas ou conflitos. E é por isto que, tal como boa parte de tudo, o racismo em Portugal é diferente. A estabilidade social (subjectiva, em alguns pontos) que se tem por cá deve-se a um maior grau de aceitação e inclusão nas ruas, nos centros comerciais, na vida normal mas que, percebemos agora, pode apenas ser resultado de um menosprezo tão profundo que pode até ser inconsciente. A aceitação do outro pode não ser resultado da assumpção de igualdade mas sim precisamente da ausência dela. Não és tão bom como eu, mas eu até aceito que sejas assim.

Há uma ausência de conflito numa divisão social que é histórica em Portugal, e isso faz diferença. Mas aparentemente não faz toda a diferença. 

Seremos, pois, mais racistas do que pensamos?