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Vilipêndio

O próximo, por favor.

Steven Noble

 

Como tudo o que não regressa,

2016 não regressará.

 

Vai ser passado,

futuro certo desde que existe.

 

O gosto de o ver a ir é, porém, de raça forte.

E que bem sabe vê-lo ir,

ir e não poder voltar mais.

 

Não voltes 2016, 

Não tentes sequer isso. 

 

Mas peço-te 

no caso de encontrares o caminho de volta,

que tragas quem levaste contigo.

 

A história de Aaron Swartz

Podemos ser felizes se conhecermos o mundo melhor que os outros?

 
Desde tenra idade, Aaroz Swartz nunca foi um miúdo normal. A sua inteligência evidenciava-se na forma como aprendia e adquiria novos conhecimentos, sempre a um ritmo mais elevado que os restantes da mesma idade. Era especial, de alguma forma. Felizmente (ou infelizmente), Aaron cresceu embrulhado no nascimento de uma nova vida digital e de tudo o que vinha agarrado ao comboio ultrassónico chamado internet. Por ser intensamente exigente consigo mesmo, ele fazia questão de estar sempre na frente desse comboio.

Estando envolvido na concepção e criação da Wikipedia e do Reedit, dedicou-se ao activismo depois de se encarar com a falta de liberdade no acesso a informação, científica e não científica, por todas as pessoas, de qualquer idade, raça, género ou poder económico. E fez dessa a sua luta.

Este documentário reflecte na curta vida de um dos activistas mais importantes da sua geração e que soube acompanhar como ninguém o progresso tecnológico e científico, não só de um ponto de vista social mas também político. Infelizmente para ele, estava bem mais à frente que a maioria. A sua inteligência era, quiçá, a mais.

Por possível ou não que seja alguém ser inteligente em demasia, é tremendamente fácil de imaginar que sim. Nós, pessoas apenas razoavelmente inteligentes, passamos por coisas no dia-a-dia que, apesar de sabermos estarem erradas, ignoramos por temos outras coisas, obviamente menos importantes e cruciais para o avançar da humanidade, mas que por qualquer motivo nos prendem maior atenção. Aaron Swartz faz parte do grupo de pessoas que não consegue ignorar essas questões, e que tudo faz para as tirar do caminho que levam. Consomem-se por isso, porque como é possivel respirar livremente sabendo ao pormenor as mais perversas realidades que o mundo nos consegue oferecer?

Contudo, outros problemas surgem em vários aspectos da vida de quem se dedica a ser ligeiramente mais inteligente que os demais, e esses prolemas são maioritariamente sociais e comportamentais. O isolamento em que Aaron cai é dolorosamente expectável e só não foi resolvido a tempo porque a luta de um homem só nunca será suficiente. 

A máquina das nossas vidas

 

 

enquanto o coração bate, a gente pode-se rir.

 

Este bocado de músculo que mora no nosso peito começa a bater e a fazer cumprir o seu dever ainda antes de estarmos perto de ser alguém e é teimoso ao ponto de conseguir bater durante mais de 100 anos. Sem parar, batida após batida, mais de 300 milhões de vezes e nos mais pequenos intervalos de toda uma vida, o coração trabalha silenciosa e imperceptívelmente por detrás das nossas memórias e experiências, sem exigir um qualquer obrigado da nossa parte.

Escrevo o que para aqui vai às 2h da manhã no Serviço de Urgência de um hospital central da cidade de Lisboa, a minha segunda casa. Sou técnico de cardiopneumologia e pelas minhas mãos e olhos (e dos meus colegas) passam todos os corações aflitos que aqui entram. Muitos e variados, todos são iguais, como sabemos. Mas aqui, neste algures, passei a saber que cada um conta a sua história, tão única como único é quem o traz no peito. 

Rápido ou lento, rítmico ou arrítmico, doente ou não, invariavelmente o coração bate. E faz questão de bater de todas as formas possíveis e, por vezes, de formas que até esse momento pareciam impossíveis. Nem sempre conseguimos antecipar a sua acção ou projectar as suas vontades. Tranquilizemo-nos, ainda assim, porque o nosso coração tanto bate que nunca pára de bater. Faz tudo por continuar a fazer o que sempre fez e, mesmo nos piores cenários, ele luta, até que lutar seja impossível.

O coração é uma máquina, no mais literal dos sentidos. Uma máquina que só nao é perfeita por ser desta vida.

E quando, por ser desta vida, pára de lutar e de bater, nasce uma nova estrela.

 

Ele está em todo o lado

Ricardo Araújo Pereira, o mais genial dos humoristas da sua geração, sempre soube que aparecer e desaparecer faz parte do modus operandi de um bom comediante, de forma a não cansar as vistas e as graças. Exceptuando o futebol, tudo aquilo que nós vemos repetidas vezes depressa nos aborrece. Volta agora à tona para nos mostrar o seu novo livro, que ainda não li pois tem prenda de Natal escrito por todo o lado e não quero arruinar a minha prenda a ninguém. Demasiada confiança? Quiçá. 

Mas voltando ao RAP e ao seu aparecer e desaparecer,  parece que para onde quer que olhemos nos últimos dias, ele está lá. Revistas, jornais, televisão ou, mais incrivelmente, no Alta Definição. Percebe-se, pelo conteúdo de todos estes interrogatórios, que o livro é uma tentativa de intelectualizar aquilo que em Portugal é muitas vezes, e erradamente, menosprezado: o humor. Esse parece-me ser, a priori, um ensaio pertinente, refrescante e necessário por parte de alguém que tem dedicado a carreira à escrita de humor (mais até do que a sua representação física) e que nos habituou a múltiplas abordagens e interpretações humorísticas. Longe dos tempos do Gato Fedorento, com o qual o humor português sofreu um terramoto e onde tudo valia para fazer rir, a comédia de RAP é, agora, menos pythonesca e mais ligada à sociedade actual e aos acontecimentos e observações diárias. O comediante torna-se outro, mas a genialidade está quase sempre vísivel.

Ricardo Araújo Pereira é tão inteligente que sabe contornar os dilemas existenciais, filosóficos e sociais que surgem como resultado precisamente dessa inteligência, dedicando apenas à comédia e ao riso a sua total atenção. É o único humorista que dedica tempo a tentar responder à eterna pertinência de ser possivel existir riso neste viver que sabemos ter um fim.