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Vilipêndio

Mais uma voltinha

 

Mais um bilhete que nos é dado, sem o querermos, e sem nada podermos fazer sem ser alinhar no espectáculo.

Façam o favor de entrar, por esta porta de um só caminho, e apreciem mais um momento histórico. Histórico pela falta de história - a forma menos interessante de se ser histórico. Participem, porque o circo só o é com público.

Enquanto vemos os malabaristas e os trapezistas permutarem-se, sempre com os mesmos truques e os mesmos trajes, rimo-nos da falta de discussão, da cor da gravata, do que se disse quando não se sabia que se ia ser candidato a malabarista. E rimo-nos porque chorar está caro e aleija mais.

Este é só mais um espectáculo de luz e agilidade, que vive do não ser politica em momento algum, do não se discutir, do não mexer no que feito está. Diz-se, apenas, que o que está mal, mal está, e de apontar o responsável. O fim do espectáculo chega com o mal pior ainda, e o responsável mudando de traje, de novo.

Campanhas eleitorais, por cá, são programas da manhã que se prolongam para a tarde. A tertúlia, tenha a cor que tiver, não passa disso mesmo. 

Deixem de chamar politica a isto. O que nos dão não são politicos, são fantoches com todos os fios à vista e um guião cujas folhas caem de tão podres que estão.

ICONOCLASTA

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Dizem-nos, fazem-nos, criam-nos, moldam-nos.

Traçam-nos um caminho, escrevem-nos um destino,

E seguindo, nós, por entre estas leis escritas e regras ditas,

por entre sistemas montados e todos os sonhos roubados,

Só nos resta realizarmo-nos com uma luz distinta.

Escapar ao destino escolhido e definido,

Pintar a nossa cor só com a nossa cor.

 

Como não ser esta maré que corre contrária às marés restantes?

Como conseguir ser um entre todos, sem cara nem querer?

 

Sujem-se as mãos, e todos os outros apêndices do nosso corpo,

Abram alas às alas das vossas vontades.

Sintam-se completos, de uma vez por todas.

Existir, apenas, não é um verbo, 

É um desperdício demente de uma mente.

 

 

 

 

 

  Ilustração Christophe Marques 2015 @ behance.net/christophem

Viver imaginado

ILUSTRAÇÃO

 

 

 

Os olhos que vivem dentro de nós, seguidores de uma fé cor-de-nada, ja nada são. 

Os olhos que vivem dentro de uma criança, por sua vez, não sabem ver. Imaginam-se, imaginando o mundo. São só dela, por que razão haveriam de ser de alguém mais? 

Então,

Mas se esses olhos são um caos de todos os mundos, 

Que raio de crescer é este que nos faz ser mais pequenos? 

 

 

 

 

               Ilustração Christophe Marques 2015 @ behance.net/christophem

 

O número que passou a outro número

O cinco que passou a seis, a noite que tinha tudo de ordinária e o dia que trouxe o mesmo sol de ontem.

A vontade de mudança, a inocência da esperança, o desejo de ver mudar o que já é uma estátua - tudo numa noite que trouxe a mesma noite e o mesmo luar.

Continuar, continuar, continuar. Passar todas estas noites e estas vidas do entretanto, até este número passar a outro número e nada mudar porque, no fim, nada muda senão o número.