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Vilipêndio

Saramagueando

 

José Saramago nunca me interessou muito como pessoa. E ainda bem, porque foi da maneira que só agora o descobri, de facto, e da única forma que devia interessar: lendo o que deixou por ler, absorvendo o resultado da sua arte e não das suas acçóes ou opiniões. É arte suficiente para isso. É arte demais, porventura. Mesmo depois de ter devorado parte dos seus dizeres, continuo a não ter o menor interesse em saber quem foi José Saramago, ainda assim. Pouco mais sei dele para além do Nobel, e isso a não saber era vergonha nacional. Posso estar certo em fazê-lo como posso estar errado e isso eu não sei, mas o que sei é que enquanto o assunto for esse eu preferirei estar a ler alguma passagem perdida de um qualquer livro dele. Já vou em quatro livros e vou indo sem saber o que fazer com tantas palavras. misturadas no meio de tanta genialidade e tanto cepticismo em frases tão bem cantadas. Vou saramagueando sem fazer ideia de como tudo será quando mais não houver para saramaguear de fresco. Contentar-me-ei a saramaguear por cima do que já saramagueei. O que se diz naqueles escritos é razão quase universal, prosa suficiente para um homem.

 

A língua é uma experiència, será quiçá a maior conquista do ser humano, uma das ferramentas que mais visceralmente nos molda, e pode ter em nós consequências físicas e reais. Faz sonhar sem sair do mundo real. Saramago é uma prova disso. Faz a maior ginástica que a mente consegue conceber para dizer que sim, e faz a ginástica contrária na frase seguinte, num bailado que não segue normas nem regras. Saramago é, tal como a língua, uma experiência. Ler quem assim escreve, principamente na sua língua de criança, é um privilégio e uma enorme responsabilidade. Esta nossa língua, eterna jovem cheia de cantos e recantos, pode ser tantas coisas mas nas mãos de Saramago é uma certeza e um orgulho.