Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Vilipêndio

Passeando no tempo


 ilustração de Nicolas Malinowsky (France)

 

"Nós passeamos no tempo até que um dia o tempo acaba"

 

A relatividade com que um jovem chamado Einstein nos destrui o velho mundo e fez nascer um novo ensina-nos que o tempo existe apenas porque nós existimos. Na ausência de quem nele pense e quem a ele se agarre, o tempo morre, não chegando nunca a nascer. Dito de outra forma, o tempo que achamos que corre só corre por acharmos que ele deveras o faz. E que assim seja, mesmo que tudo queiramos, tudo imaginemos, tudo sonhemos e mesmo que isso seja o melhor que fazemos. Há algo de tremendamente belo nesta nossa ilusão de andar, neste nosso belo engano de andarmos para a frente, ou de andarmos sequer, ignorando a dimensão de tudo o que já houve e haverá, imaginando-nos como donos de uma substância surreal e ímpossivel de tocar. E isso pode e deve-nos ser suficiente, porque o tempo é tão alheio a responsabilidades que para alguém ser Camões basta imaginar que é. 

A vida é apenas um passeio que damos pelo tempo, usando esta matéria a que inocentemente chamamos de corpo, quando o que é corpo é a mente e isto que levamos agarrado à cabeça apenas a forma de dar uma expressão real daquilo que é inexplicável. Achar mais que isto do que por cá fazemos conjuga-se sempre como superflúo.

No fim, o passeio acaba e o tempo nega-se a si mesmo. Custa, ainda assim, acreditar no fim de algo que nunca chegou a existir. Porque, no final das contas, a única coisa que existiu foi a nossa vontade que algo existisse.

 

 

 

 

 a Adriana Jones, presidente da Associação de Defesa do Património de Sintra e alfabarrista numa preciosa livraria em Sintra e que, dando mostras da sua simpatia e eloquência, me deu a possibilidade de, com ela, partilhar uma inspiradora conversa onde, entre tudo o resto, me deixou com a frase que serve de chapéu a este texto. E leva agora a resposta!