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Vilipêndio

O nosso Halloween

Para os outros lados daquele sem-fim de água chamado Atlântico vive bem viva a tradição de celebrar o medo, o terror, os mortos e o lado negro desta máscara que usamos sem pedirmos para usar. O Halloween, celebração que remonta há cerca de três séculos atrás, usa o susto como transporte para a celebração e já que temos de usar a máscara, por que não vivê-la em ambos os lados.

 

 

E se de medo falamos, a personagem do nosso Halloween, e de todos os outros nossos santos dias, recai em José Sócrates. Presa fácil, quiçá. Mas presa merecedora dessa atenção, também. A tragédia que é comédia, que faz rir tanto que se chega ao ponto de chorar aquelas lágrimas que não são nem uma coisa nem outra. Na praça pública, em tribunal, onde quer que seja, José Sócrates já ruiu por completo. Por muito que advoguem pelos seus direitos, que nunca lhe devem obviamente faltar, é humanamente impossível concordar que exista inocência no chavascal de provas, indícios, escutas e de todos os enredos por detrás da Operação Marquês. É tudo demasiado mesquinho quando se fala de alguém que ocupou o cargo que ocupou. 

Poucas visões interessam para além daquela que é a geral. A fotografia total, a panorâmica. A fotografia que fica guardada na História. E essa é a de um Primeiro-Ministro de um país com quase um milénio de existência que, juntamente com outras tantas individualidades nucleares, montou uma rede de influências totalmente destinada ao benefício próprio, ao lóbi político, à corrupção, à lavagem de dinheiro, e tantas outras coisas que, de todo o mal que têm, a pior é capaz de ser o facto de não chocarem ninguém. Porque a única diferença que existe entre os sócrates e os isaltinos e todos os outros da mesma qualidade que por cá proliferam é o facto de um ter sido quem foi. E Socrátes foi quem foi. E a imagem que fica de um homem que foi eleito democraticamente por duas vezes é destrutiva a todos os níveis.  Envergonha toda a gente, não só os envolvidos, e derrota todos os partidos, porque a culpa não mora só num, tragicamente. E num ano em que já tivemos tantos motivos de vergonha e tristeza, este só pode ser o mais escusado dos pináculos. A imagem de algo a falhar de forma histórica, um colossal falhanço de um Estado que deve apostar bem mais em dar condições de sobrevivência, salvamento, operacionalidade em situações de emergência que são já tradicionais e não facilitar o enchimento dos bolsos de quem devia mandar as ordens mas que pouco faz para que isto seja mais que um paraíso de turista francês.

E o medo, que é o que nos traz a esta singela celebração, esse só pode aumentar. Este medo de tudo ficar como está.

Se isto não chega para um excelente Halloween, não sei o que chegará.

 

 

 

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