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Vilipêndio

O inferno existe

 

Foto: Gonçalo Delgado / Lusa

 

Afinal Pedrogão não foi a única machadada deste Verão. Havia mais. Havia um 15 de Outubro para acontecer, um 16 também. E todos os outros dias de um Verão que trouxe um calor que nos aproximou das portas de um inferno real demais para se poder descrever.

Mais uma vez pudémos aclamar os heróis que correm na direcção das chamas que tudo levam pela frente, levando a mangueira numa mão e a alma na outra, porque esses são os nossos únicos heróis. E eles existem, e são muitos, e são quem merece a primeira palavra de qualquer texto.

Os incêndios, um problema que tem barbas de velho, passou este ano a ser o principal assunto, um ao qual deixou de se poder fugir e não agir. Exige-se acção, rápida e concreta. Como eles fazem nos países grandes e crescidos. Aos políticos, e ao sistema político no geral, pede-se seriedade, estratégia, aplicação correcta de fundos, sentido de dever e de responsabilidade mas, acima de tudo, acção. 

Começando pela etiologia dos fogos, saber se existe mão criminosa parece ser um caminho pouco claro, do qual pouco se fala, sobrando um anonimato para os criminosos que não se vê na grande maioria dos crimes. E isso até pode ser de louvar, mas não se isso significar a impunidade do mesmo. As penas aplicadas são, no mínimo, pouco dissuadoras e permitem, muitas vezes, a reincidência. Existem, para além disso, graves falhas - culturais ou não - na educação do agricultor, do empresário, do proprietário do terreno, do turista, do comum cidadão. Há falhas em todos os lados, mas as falhas só existem até surgir uma solução, e a solução tem um caminho, com um início, um meio e um fim.

Parece haver em Portugal uma tendência muito fastidiosa para não saber responder ao que nos é dado e posto em frente às vistas. Qualquer animal minimamente evoluído usa essa capacidade e fá-lo como método de sobrevivência, processo que se pode definir como adaptação. Em Portugal, e muito particularmente no que toca aos incêndios, não se vê isso acontecer. Existe um problema, recorrente e de há décadas, que ou é grande demais ou não há vontade para o resolver.

Falhámos. A quem morreu, a quem viu a casa arder, o trabalho a arder, a aldeia a arder, uma vida a arder sem a ajuda de um bombeiro ou de alguém que seja. Contando apenas com o balde e a mangueira. 

A essas pessoas o país falhou tragicamente.

P.S.- Custa ver o que aconteceu nos últimos dois dias no país, às suas muito humildes populações e belezas sem igual, na mesma semana em que soubemos os 31 crimes de um ex-primeiro ministro, que conseguiu criar uma rede de influências e de desvio, lavagem e aquisição de bens financeiros juntamente com alguns dos mais poderosos agentes politicos, empresariais, bancários do nosso país. Algo está a falhar redondamente, e não é díficil enxergar o porquê.

 

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