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Vilipêndio

O horror é real demais

Portugal continua a assistir à morte lenta daquilo que equivale a um terço do seu território, vendo no caminho desaparecerem famílias inteiras, e sonhos desfeitos por um calor talvez inevitável mas certamente antecipável.

O que aconteceu em Pedrogão ultrapassa a barreira da compreensão, pela brutalidade e crueldade com que chegou. Há momentos em que parece surreal. Pena dá que em Portugal o surreal se torne dolorosamente subjectivo. O que se discute hoje é algo que é sabido há décadas, é um dos assunstos sazonais que gostamos de ter por cá, tal como a gripe ou as urgências hospitalares. Infelizmente, desta vez, o resultado final é inenarrável. O que mais dói, de tudo o que dói nesta história, é saber que não era preciso ser dono de poderes sobrenaturais para ter tido, há já algum tempo, a visão do inferno que acabou por cair à frente daquelas infelizes almas. 

Quando passar todo o aparato mediático que se criou à volta desta tragédia - que já nos deu a oportunidade de ver telejornais entre camiões dos bombeiros e reportagens com cadáveres no plano - e que beneficia não consigo vislumbrar quem, é preciso colocar, de forma urgente, fundos e recursos na antecipação e prevenção de incêndios florestais, na melhoria das condições de trabalho de bombeiros, polícias, guardas florestais, e tudo aquilo que se discute desde sensivelmente sempre. 

 

Já lá vão algumas horas desde que aconteceu aquilo que toda a gente viu. Mas que pouca gente viveu. Menos ainda as que conseguiram sobreviver. E as que, sem saber se feliz ou infelizmente, cá continuam não sabem o que fazer com o que resta desse continuar. De igual forma, não sabemos nós que sofremos por imaginar que, naquele momento, aquelas pessoas estiveram cruelmente sozinhas com o inferno em frente aos olhos. 

 

 

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