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Vilipêndio

Não fui votar

Tal como 1 em 3 portugueses, não fui votar naquilo que aconteceu no domingo passado. E está na hora de isso deixar de ser uma vergonha.

 

Por que razão tenho de votar? Por que tenho de fazer parte, activamente, de um triste espectáculo de hipocrisia e nonsense? Não nos queiram obrigar a escolher entre um e outro, mau e péssimo, ou a votar em branco, ou em preto, ou em azul. A Europa, essa, está tão longe de nós, mal a vemos. Da nossa janela vê-se, quanto muito, o prédio do vizinho. E já nos chega. Falam-nos do Parlamento Europeu, essa instituição de boa reputação, e muito grande. Acaba por ser giro, mas nada mais.

 

A politica, e neste caso especifico a portuguesa (não sendo, de todo, caso único), está podre. Por dentro, por fora, pelo meio. É impossível ignorar os dados de abstenção das eleições europeias, à luz do que é a história do nosso país. Após 40 anos de democracia, data não assim tão distante, é tremendamente simbólica a falta de interesse dos portugueses pela máquina politica. O povo não sabe de política porque a política chega-lhe na forma de discursos em comícios incendiados pelos conflitozinhos interpartidários, pelo palavreado inundado de clichés baratos, por números estatísticos que pouco dizem ao nosso umbigo. E, por isso, e bem pior que não saberem, os portugueses não querem saber. Há um “nós” e um “eles”, e um buraco entre ambos que não se cansa de crescer. Perdemos, algures, a ligação com os que nos representam. A mensagem é clara.

 

Estou farto, estamos todos fartos. Parabenizo, do fundo do coração, aqueles que, ao votarem, se enchem de orgulho pelo feito. Contenta-me ver esse sentimento, mas temo que de pouco valha. 

 

A nossa voz vai ficando cada vez mais ináudivel, e cada vez mais custa mais a levantar. E por isso não podem querer obrigar-nos a participar num circo cujos ilusionistas teimam em ser os mesmos, ano após miserável ano, com um bilhete de entrada tão caro e um bilhete de saída ainda mais.

 

E, no fim, pior que os números da abstenção, que a falta de interesse e conhecimento, é a falta de esperança. Essa, sim, assusta.