Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Vilipêndio

Mário Soares e a gripe

Duas entidades de foros totalmente opostos - por um lado, a infecção respiratória sazonal, por outro a ex-presidência da República - ocuparam, durante o tempo festivo que agora acaba, o topo das prioridades no que diz respeito à notícia em Portugal.

Passámos o Natal e o Ano Novo juntamente com o pobre porta-voz do Hospital da Cruz Vermelha, o homem com os óculos mais contextualizados com a moda que a televisão nos ofereceu nos últimos tempos. Todos os dias explanava a situação do ex-presidente da República, perante microfones esfomeados por um comunicado em que dizia que, por aquilo que todas as máquinas indicavam, Mário Soares estava vivo. Acrescentava depois que no dia seguinte, caso as máquinas continuassem a dizer o mesmo, ele iria dzier o mesmo também. De toda essa riqueza informativa, era possível, obviamente, extrair minutos largos de análises das mais diversas frentes, chegando-se inclusivamente à analise médico-cirúrgica.

Outra coisa que nos acompanhou nas festas natalícias foi um vírus, tão conhecido como infalível. Entope narizes e também, sabemos nós ha uns anos, urgências hospitalares. O fenómeno é sazonal, como são os grandes assuntos em Portugal. No fundo, a gripe ocupa no Inverno o lugar que é dos incêndios no Verão. O volume de atenção que se lhes confere, por um período de tempo, é ridiculamente desproporcional às medidas que se tomam no sentido de os evitar no ano a seguir. Mas as notícias fazem-se e reproduzem-se, para bem não sei de quem, para qual solução eu não consigo descorrer.

Em Portugal, passarem 365 dias mais se assemelha ao passar de 365 segundos. Bom ano para nós, ainda assim.

Imagem: Dosmosis, UK