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Vilipêndio

Ele está em todo o lado

Ricardo Araújo Pereira, o mais genial dos humoristas da sua geração, sempre soube que aparecer e desaparecer faz parte do modus operandi de um bom comediante, de forma a não cansar as vistas e as graças. Exceptuando o futebol, tudo aquilo que nós vemos repetidas vezes depressa nos aborrece. Volta agora à tona para nos mostrar o seu novo livro, que ainda não li pois tem prenda de Natal escrito por todo o lado e não quero arruinar a minha prenda a ninguém. Demasiada confiança? Quiçá. 

Mas voltando ao RAP e ao seu aparecer e desaparecer,  parece que para onde quer que olhemos nos últimos dias, ele está lá. Revistas, jornais, televisão ou, mais incrivelmente, no Alta Definição. Percebe-se, pelo conteúdo de todos estes interrogatórios, que o livro é uma tentativa de intelectualizar aquilo que em Portugal é muitas vezes, e erradamente, menosprezado: o humor. Esse parece-me ser, a priori, um ensaio pertinente, refrescante e necessário por parte de alguém que tem dedicado a carreira à escrita de humor (mais até do que a sua representação física) e que nos habituou a múltiplas abordagens e interpretações humorísticas. Longe dos tempos do Gato Fedorento, com o qual o humor português sofreu um terramoto e onde tudo valia para fazer rir, a comédia de RAP é, agora, menos pythonesca e mais ligada à sociedade actual e aos acontecimentos e observações diárias. O comediante torna-se outro, mas a genialidade está quase sempre vísivel.

Ricardo Araújo Pereira é tão inteligente que sabe contornar os dilemas existenciais, filosóficos e sociais que surgem como resultado precisamente dessa inteligência, dedicando apenas à comédia e ao riso a sua total atenção. É o único humorista que dedica tempo a tentar responder à eterna pertinência de ser possivel existir riso neste viver que sabemos ter um fim.