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Vilipêndio

E a bola, meus senhores?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao longo da distância que percorre a minha memória, o futebol sempre foi parte essencial. O Benfica impregnou-se em mim bem cedo, pelo que a sensação de ser benfiquista é das mais primitivas que tenho. Em criança, e como à grande maioria dos miúdos, o desporto tinha em mim uma enorme influência e acabou por ser determinante nesses ingénuos anos. Ser campeão europeu em França este ano representou um sonho cumprido, uma façanha inigualável e que havia de ser festejada e bem festejada. Um momento que entra directamente no leque das memórias a reter eternamente.

Contudo, dentro de portas, a situação que vive o nosso futebol actualmente é vergonhosamente diferente. Está a definhar à nossa frente, nas nossas televisões, nos nossos estádios, em todos aqueles lados onde o futebol devia voltar a ser apenas o futebol, uma festa. 

Não lhe faço o meu funeral pessoal ainda, não vou desistir, principalmente porque o Benfica é algo que nos entra e nos entra forte, mas o interesse é uma miragem daquilo que era expectável. Para quem apenas gostava de ver 11 homens a correr com outros 11 homens com uma bola pelo meio, o que se passa hoje é, no mínimo, desolador. Os 11 gajos são a quinta coisa mais importante no futebol neste momento, perdendo para o árbitro, as decisões do árbitro, os calções do árbitro e as refeições do árbitro. É só disso que se fala, é só isso que se discute, o árbitro passou a ser o centro de todo o jogo.

É doloroso para a alma pensar nos programas de debate futebolístico que a televisão conseguiu regurgitar nos últimos anos. É esse o ponto baixo, sem dúvida. O momento em que já vale tudo. Por motivos que sabemos, estes autênticos freak shows passaram a alimentar uma parte bastante significativa do debate desportivo no nosso país. E, sem darmos conta, o futebol perdeu-se ali no meio de Pedros Guerras, cuspidelas, câmaras de vigilância, pénaltis, e todas as coisas que não interessem por não serem uma bola a entrar numa baliza.

Depois do processo Apito Dourado e das preciosas escutas que este nos proporcionou (e que estão disponiveis para ouvir à distância de um querer), no momento em que toda a credibilidade caiu e tudo ficou ligeiramente mais transparente, o futebol português começou a morrer. O que se passa hoje é o resultado directo disso. A desconfiança, a postura de guerrilha, o desinteresse pelo jogo e a concentração total na actuação do árbitro contaminaram todo o ambiente à volta do jogo, e tudo isso está a matar o futebol português. 

Acho difícil que se reerga, pelo menos enquanto nós formos aquilo que sempre fomos: portugueses.