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Vilipêndio

Começa com c e mete medo

 

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  Dói. 

 e é para sempre.  

Não existem muitas coisas que sejam donas da chave da mudança, que sejam verdadeiramente importantes e definidoras, mas o cancro é certamente uma delas. Tem sempre um pré mas muitas vezes deixa-nos sem um pós

É assustadora a quantidade de casos que vemos no dia-a-dia de pessoas, jovens ou não, saudáveis ou não, que passaram a ter um desfecho imprevisível e a ser a imagem de uma guerra contra o próprio corpo. Dá a sensação que ou se morre de cancro ou de todas as outras doenças, numa proporção de 50/50. E isso só pode querer dizer algo.

 

O que é?, como se desenvolve?, como se alastra?, como me posso defender?, quanto tempo tenho?, que fiz eu de errado?...


As perguntas são demasiadas para as parcas respostas disponíveis. E isso é capaz de ser o que mais dói, a terrivel e quase mágica incerteza de uma doença que continua a ser uma incógnita.

Para quem recebe a noticia é como se o planeta começasse a rodar ao contrário, como se tudo fosse agora irrelevante e descartável. Tudo é uma corrida contra o movimento do mundo, a partir dali desconhecido e invertido. Cada dia é só esse dia e nada mais, o luxo do amanhã é incomportável. Para quem é um infeliz espectador de todos os desenrolares de uma doença oncológica tudo se transforma igualmente, todos os passos são novas lutas, desde o inicio até a um fim que está algures. A dor de quem assiste ao definhar de alguém que ama é uma experiência que deixa marcas definitivas no mais primitivo do nosso ser. Não serão todas negativas e traumáticas, pois aprendemos a valorizar o que antes nos era indiferente e deixa-nos respirar com mais calma e mais fundo. Porque a partir dali sabemos que a nossa vida vale pouco mais que a brisa do mar ou o raio de um sol que se põe no final de um dia.

 

A palavra cancro já não é só uma palavra, passou a ser uma maldição, soa a inevitável e tornou-se uma razão para olhar tudo com outros olhares. Ele acorda onde quer e lhe apetece, não avisa nem faz barulho e intromete-se em histórias cujas linhas ainda se escrevem e cuja cor muda, irremediavelmente.