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Vilipêndio

A máquina das nossas vidas

 

 

enquanto o coração bate, a gente pode-se rir.

 

Este bocado de músculo que mora no nosso peito começa a bater e a fazer cumprir o seu dever ainda antes de estarmos perto de ser alguém e é teimoso ao ponto de conseguir bater durante mais de 100 anos. Sem parar, batida após batida, mais de 300 milhões de vezes e nos mais pequenos intervalos de toda uma vida, o coração trabalha silenciosa e imperceptívelmente por detrás das nossas memórias e experiências, sem exigir um qualquer obrigado da nossa parte.

Escrevo o que para aqui vai às 2h da manhã no Serviço de Urgência de um hospital central da cidade de Lisboa, a minha segunda casa. Sou técnico de cardiopneumologia e pelas minhas mãos e olhos (e dos meus colegas) passam todos os corações aflitos que aqui entram. Muitos e variados, todos são iguais, como sabemos. Mas aqui, neste algures, passei a saber que cada um conta a sua história, tão única como único é quem o traz no peito. 

Rápido ou lento, rítmico ou arrítmico, doente ou não, invariavelmente o coração bate. E faz questão de bater de todas as formas possíveis e, por vezes, de formas que até esse momento pareciam impossíveis. Nem sempre conseguimos antecipar a sua acção ou projectar as suas vontades. Tranquilizemo-nos, ainda assim, porque o nosso coração tanto bate que nunca pára de bater. Faz tudo por continuar a fazer o que sempre fez e, mesmo nos piores cenários, ele luta, até que lutar seja impossível.

O coração é uma máquina, no mais literal dos sentidos. Uma máquina que só nao é perfeita por ser desta vida.

E quando, por ser desta vida, pára de lutar e de bater, nasce uma nova estrela.